145 Gramas

Noir e pulp nas ruas de uma Nova York arcade. Por Alexandre Mandarino.

About

Alexandre de Jarém Mandarino é escritor, jornalista e tradutor. Abandonou o mundo das redações, onde viveu por 15 anos, para se dedicar (quase) exclusivamente a escrever o que mais gosta: ficção. Além disso, escreve ocasionais ensaios e resenhas, cria breakbeats com seu projeto de música eletrônica Chip Totec, fotografa mundos arquitetonicamente solitários e se mete a fazer coisas ligadas a sound art, games, ambient, vídeo e o que mais possibilitar opções estético-narrativas.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 1

Mas quem me vê regularmente me trata pelo apelido de "Mad". "Mad" Williams. Não gosto desse apelido, mas desgosto menos dele do que do meu nome de batismo.

Forest Whitaker
Forest Whitaker é Muhammad Williams

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 2

Giro a chave e, enquanto o motor ronca, os limpadores gemem em luta contra a neve no pára-brisas. Preciso arranjar uma garagem pra guardar o carro. Ele é bom: mesmo com o frio que fez essa madrugada, pega em questão de segundos.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 3

Normalmente não me impressiono com a mercadoria, mas confesso que a foto me deixou perturbado. Percebendo minha expressão, Ted diz, com certo prazer:

- Sim, é Jock Rigazzalli.

Chris Penn
Chris Penn é Jock Rigazzalli

Eu levanto os olhos da foto nas minhas mãos e encaro Ted.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 4

Os minutos passam tensos, enquanto vigio os quatro gorilas de terno. Para minha sorte, não sou conhecido pelos altos escalões da Máfia, nem pelos seus capangas; para meu azar, estão longe e não consigo ouvir o que dizem.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 5

Levanto de um salto e me visto apressadamente. O grito diminui até desaparecer. Quando termino de colocar os sapatos, olho para o relógio: são quatro e quinze. E então o grito retorna, desta vez ainda mais alto. Pego a minha pistola no bolso da jaqueta que estava usando de manhã e caminho até a porta.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 6

O capanga que está junto à porta leva à mão direita ao bolso, enquanto Myrtes retorna do cômodo ao lado. Ela é observada com atenção pelo gorila enquanto abre a porta.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 7

O telefone toca e ninguém atende do outro lado. Bom, Ted deve ter descido pra tomar umas cervejas ou algo assim. Meu coração finalmente começa a desacelerar, junto com o Arbuckle. Apesar das palavras, é muito mais fácil escrever sobre essas coisas do que fazê-las. Bom, grande frase. “Mais fácil escrever do que fazer”. Isso deve ser óbvio. Mas é uma verdade bem grande, porque pra mim fica cada vez mais difícil lidar com essas coisas, do ponto de vista físico.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 8

Chego mesmo a pensar em girar a maçaneta, abrir a porta e pular do carro em movimento, mas isso seria inacreditavelmente estúpido. Fico mais tranquilo quando percebo que o carro está voltando, tomando a direção do meu prédio, após rodar a esmo por alguns quarteirões. “Mambo” me dá um estranho tapinha nas costas e fala:

- Felizmente, nem todo mundo da polícia simpatizava com Rigazzalli, sabe?

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 9

Myrtes. Myrtes Rigazzalli quer que eu trabalhe pra ela. Isso tem a palavra “armadilha” soletrada em neon gigante por todos os lados, mas... o que ela disse mesmo? Que a polícia não tem meu nome ou descrição ainda. Isso explica porque “Mambo” veio aqui me dar um susto e não me levou preso (não que ele já não soubesse qual é a minha “opção de carreira”; ele sempre soube, mas sempre fechou o olho pra isso, por falta de provas).

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 10

- “Mad”, a essa altura, se ainda não percebeu, já deveria ter sacado que o mundo é dos espertos.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 11

A ficha médica treme levemente na minha mão. O barulho do papel parece se alastrar por quarteirões e quarteirões. “Não saber o que dizer” fica muito, muito aquém daquela situação toda. Digamos assim: eu queria encolher e ficar ridiculamente pequeno até que meu corpo e toda a minha vida coubessem dentro de uma tupperware. A mistura de constrangimento, vergonha e raiva é algo indescritível, mas tenho certeza de que todos vocês sabem do que estou falando.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 12

Irritado, sabe? Eu tô começando a ficar realmente irritado. E agora ainda tem mais esse palhaço. Não bastasse me mandar matar meu próprio pai, o cretino do Andrea ainda coloca esse redneck racista na minha cola. Ele continua apontando o 45 pra mim. Eu digo, me esforçando em manter a calma:

- Olha aqui, cara, o combinado era matar o paciente do hospital OU algum conhecido meu. Fica tranquilo que eu vou cumprir o combinado. Sempre faço isso, infelizmente. Mas não vou matar o paciente desse hospital. Agora, me deixa ir embora porque tenho que procurar algum... conhecido para matar.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Epílogo: Arbuckle

Cinco anos atrás.

O barulho do osso batendo na madeira podia ser ouvido do lado de fora do Travis Bar. “Bar” é um eufemismo para “grupos de sujeitos de qualidade duvidosa bebendo cerveja e jogando sinuca”, mas “Mad” gostava do lugar. Ali, ele era apenas mais um rosto, passando desapercebido pela multidão de rostos alcoolizados.

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