145 Gramas - Capítulo 1
Domingo, Novembro 28, 2004 at 6:18PM Não sei muito bem como começar a escrever isto. A última vez que escrevi algo semelhante foi nas cartas semanais para a minha mãe, mas ela morreu há mais de dez anos. Tuberculose. Não vejo meu pai desde que eu tinha dois anos. O velho Travis, dono do bilhar aqui do quarteirão, garante que viu meu pai no Arizona, no ano passado. Mas o velho Travis enxderga mal e não consegue distinguir uma bola 4 de uma bola 8 - e meu pai certamente é uma bola 8. Mas esta não é uma história de "busca ao pai desaparecido". Na verdade, não sei como classificar esta história.
Quer dizer, sei. Só não estou pronto ainda para resumi-la em uma frase. Evito pensar em termos de frases sobre o que eu faço. Prefiro deixar que vocês descubram sozinhos. Meu nome é Muhammad Williams. Não, não sou árabe nem sigo o Islã: o nome é uma homenagem a Muhammad Ali. Meu pai era fã de Cassius Clay e o nome é o resultado do encontro entre uma noite de bebedeira e um batismo marcado muito cedo para a manhã seguinte. Eu odeio manhãs.
Claro, ninguém me chama de Muhammad. Quando conheço alguém, invento um nome na hora - normalmente as pessoas que conheço não vão ter de se lembrar do meu nome depois, então tanto faz. Mas quem me vê regularmente me trata pelo apelido de "Mad". "Mad" Williams. Não gosto desse apelido, mas desgosto menos dele do que do meu nome de batismo.

Forest Whitaker é Muhammad Williams
Bom, é uma manhã de domingo e o despertador vagabundo mais uma vez não tocou. Estou duas horas e meia atrasado. Ted vai ficar puto. Se quiser ir comigo até lá e compartilhar o sermão comigo, talvez comece a entender o que eu faço. Já estou me vestindo. Está pronto?
Saio pela porta e o bafo quente do corredor, com suas paredes descascadas, parece embaçar a pele da minha nuca. Balanço a gola da jaqueta, para me refrescar. Rapidamente levo a mão aos bolsos; tudo aqui. Quando estou prestes a sair pela porta da rua, no térreo, a dona Williams me interrompe. Ela é a velhinha moradora do 101. Nenhum parentesco, só o mesmo sobrenome. A voz sai esganiçada da boca dela:
- Boa tarde, sr. Williams - ela disse, frisando desta forma o meu atraso.
- Bom dia, sra. Williams. Ainda são dez e meia.
- Tempo suficiente para o pobre Mike começar a gritar de novo.
Dito isso, ela me olha com estranha expectativa. Mike era o menino do 201, uns nove ou dez anos. Toda a vizinhança sabia que o pai de Mike batia nele com cintos ou coisas piores, mas negros são espertos demais neste bairro para chamar a polícia contra um vizinho branco. E eu não posso mesmo me intrometer. Seria um tiro pela culatra, na certa. Finjo que não sei do que a velha está falando, dou bom dia e saio pela porta.
O teto do Arbuckle está cheio de neve. Arbuckle é como chamo o meu Ford Mustang 1977. É uma homenagem ao primeiro cara que eu... bem, que eu encontrei na minha carreira. Mas é besteira esconder por muito mais tempo o que eu faço. Vocês vão descobrir em meia-hora, assim que encontrarmos o Ted.
(continua amanhã)



Reader Comments (7)
Cê recebeu meus 2 e-mails?
Posted by Anônimo Veneziano at 10:21 Saturday 4, 2004
Também gostei do formato pílula-pulp. Mais dinâmico.
E o Mad é muito bem construído. Um cara que nao gosta do próprio nome e chama o pai de bola 8, além de nao apagar os "irmaos" só merece meu respeito.
Posted by Massula at 10:22 Saturday 4, 2004