145 Gramas

Noir e pulp nas ruas de uma Nova York arcade. Por Alexandre Mandarino.

About

Alexandre de Jarém Mandarino é escritor, jornalista e tradutor. Abandonou o mundo das redações, onde viveu por 15 anos, para se dedicar (quase) exclusivamente a escrever o que mais gosta: ficção. Além disso, escreve ocasionais ensaios e resenhas, cria breakbeats com seu projeto de música eletrônica Chip Totec, fotografa mundos arquitetonicamente solitários e se mete a fazer coisas ligadas a sound art, games, ambient, vídeo e o que mais possibilitar opções estético-narrativas.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 2

Giro a chave e, enquanto o motor ronca, os limpadores gemem em luta contra a neve no pára-brisas. Preciso arranjar uma garagem pra guardar o carro. Ele é bom: mesmo com o frio que fez essa madrugada, pega em questão de segundos. Uma hora eu conto por que eu o chamo de Arbuckle. É uma história... bom, engraçada, acho. Mas primeiro preciso encontrar o Ted. A cabeça-de-porco que ele trata como seu escritório fica a três quarteirões daqui, na Avenida D. Cinco minutos, a essa hora.
Estendo o braço direito e a tecla “play” se amolda ao meu indicador. Marvin Gaye começa a me perguntar “what’s happening, brother?”. Eu não sei. Nunca soube. E isso vai explicar muita coisa, vocês vão ver.

Uns oito minutos depois eu páro o Arbuckle bem em frente à porta do moquifo onde o Ted trabalha. Ainda não falei do Ted, né? Ted “Payola” manda aqui na Cidade Alfabeto. Quer dizer, só por essa frase já perceberam que eu não sou nenhum adolescente. Ninguém mais chama iso aqui de Cidade Alfabeto e, claro, ninguém mais “manda”, ao menos não nesse sentido. Mas o Ted acha que sim e, se quero ganhar a vida, preciso fingir que acho isso também. Saio do carro e o idiota do Andrea sai pela porta nesse exato momento.

John Turturro.gif
John Turturro é Andrea Porrazzo

Ele pára, me encara com um olhar estranho e diz:

- Meio atrasado, né? São quase onze horas. Você devia tá aqui às oito.

- É... Eu não preguei o olho a noite toda. A dor de coluna que eu falei na seman...

- É, tá bom - ele corta. - O ted tá te esperando ainda, mas não sei porquê. Você tá ficando velho, cara.
E com essa ele me dá as costas e segue pela calçada. Antes de entrar pela mesma porta de onde ele havia saído, tenho a impressão de ouvi-lo resmungar algo como “crioulo imbecil”, alguma coisa assim. O Andrea nunca foi muito com a minha cara. Bom, Ted.

Subo as escadas e bato na porta, antes de empurrá-la e entrar. Ted está sentado na mesa, olhando uns papéis. O “escritório”, claro, está repleto de restos de McLanche Feliz, tacos soltos e móveis que nem tenho como descrever. Ele levanta a sobrancelha ao me ver entrar.
- Aleluia. Demorou “um pouco”, né? - sua voz soa ainda mais anasalada e aguda que de costume.

Joe Pantoliano
Joe Pantoliano é Ted “Payola.

- É, foi mal. Eu...

- Senta aí. - e aponta uma duvidosa cadeira à sua frente. Eu me sento e espero. Ele continua:

- Esse serviço agora não vai ser fácil. Quer dizer, não é nada complicado - mas não é corriqueiro. Um cara lá de Jersey me meteu em algumas complicações. Ele tem um posto de gasolina e... - e então Ted se embrenhou em uma longa e interminável história sobre o tal sujeito, uma amante porto-riquenha e três mil dólares. Ted adorava contar histórias longas sobre esses sujeitos, como uma espécie de homenagem antes deles morrerem.

Ops. Bom, vocês já sabem o que eu faço.

- E aí, “Mad”? O que você acha? Tranquilo, né? - ele joga seus olhos arregalados na minha direção.

Eu não respondo nada. No lugar disso, digo:

- Eu preciso de uma foto dele. Como eu vou saber quem é o cara?

Ted se estica por sobre a mesa e me passa um envelope de papel pardo meio amassado. Acho que é o mesmo envelope daquele serviço da semana passada. Ted deve estar meio mal de grana. Tiro a foto de dentro e dou uma espiada.

Eu dou um suspiro e olho para Ted.

- Ted, você sabe que não vai ser possível.

- Ahn?

- Não vai rolar, cara.

- Você conhece o sujieto? - ele me pergunta, sem entender.

- Não, nunca vi na vida. Mas olha bem pra cara dele. - e estendo a fotografia frente ao seu rosto. Ele olha, com uma expressão curiosa, a boca aberta.

- Eu não preciso olhar pra esse corno. Conheço o cara há onze anos. Ele me deve três mil dólares há quatro anos. Eu sei a cara dele de cor!

- Ele é negro, Ted.

- Como é?

- Você sabe que eu não faço negros.

Ted dá um assobio de impaciência, me encarando com uma expressão incrédula.

- Ah, não acredito.

- Eu te disse isso anos atrás.

- É, mas achei que fosse sacanagem. E daí se ele é afro-americano? O cara é um...

- Não, não me vem com esse papo de “afro-americano” - eu respondo, irritado. - Afro-americano é o caralho. Ele é negro. Crioulo. Um filho da puta de um macaco. Chama o cara de qualquer coisa, mas não de “afro-americano”.

- Mas, então! Se ele é um filho da puta, mais um motivo pra você levar esse seu Mustang velho até Jersey e...

- Eu não faço negros. Negros estão fora.

- POR QUÊ??? - ele dá um murro na mesa. Eu o olho com calma.

- Ted, dá uma olhada em mim. Uma boa olhada. Você vai descobrir por quê.

Ele pára, boquiaberto, e diz:

- Tá. Tá bom. É isso, então. Você é afro-ameri... negro. E daí?

- Eu... não... mato... negros!

Ele bufa uma última vez:

- Porra, tá certo! Que merda. Olha, tudo bem. Você é o meu melhor cara, Williams. Eficiente, faz um serviço limpo, rápido e sem dar mole. Vou aceitar isso só por causa disso. OK, não te passo mais negros... - ele pára, com um brilho diferente nos olhos. Por um momento, acho que ele vai rir. Engano:

- Mas você sabe que por causa dessa tua recusa vou ter que chamar o Waters, né? O Waters é da Louisiana. Acho que ele foi da Ku Klux Klan ou alguma merda assim. Ele vai matar esse merda com o maior prazer, mas o Waters é um psicopata. Ele vai destroçar esse crioulo. Pensa nisso. O cara podia ter uma morte decente e indolor, mas por tua casua ele vai sofrer.

- Pff! - eu rio e aponto a mão direita para o meu peito. - “Minha causa?”.

- É. Se você pegasse isso, o cara ia morrer na boa. Mas o Waters vai quere fazer o filho da puta sofrer. Vai ser a maior lambança. - e então, subitamente, aperta um botão no telefone sobre sua mesa e diz para alguém do outro lado da linha:

- Janice, tenta achar o Waters. Agora.

E então se recosta na cadeira, abrindo os braços, como quem diz “satisfeito agora?”. Ted “Payola” é um sujeito esquisito. Eu me levanto e digo, como despedida:

- Sinto muito, Ted. Eu nunca te deixei na mão antes, mas negros estão fora. Fica pra próxima.

- Onde você vai? Senta aí. A próxima é agora mesmo. - ele mexe em um arquivo ao seu lado e tira uma ficha amarelada.
- Tem esse cara. Ele precisa estar morto hoje à noite. Antes das oito. De forma alguma ele pode estar respirando depois das oito. Eu ia te passar isso depois que voltasse lá der Jersey, mas já que você prefere deixar um racista safado torturar um irmão de côr seu, toma logo isso.

Ele me estende a ficha.

Eu leio o nome escrito à mão nela e fico boquiaberto.

(continua amanhã)

Reader Comments (8)

que bom poder ler vc de novo após de um longo período de férias...adorei as mudanças no site - quanto mais vc muda, mais eu fico feliz! tô amando essa nova aventura com o forest whitaker - ele é o meu negão mais adorado... nossa, como vc tá ficando mais e mais foda (cabecinha mais abençoada essa a sua, hein!) ;)))Posted by coelho at 10:24 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered Commentercoelho
; )))

Valeu, Coelho! Fico feliz que tenha gostado.Essa história é bizarra e o final dela... eh, eh.

Posted by Alexandre Mandarino at 10:24 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAlexandre Mandarino
Tás sabendo da entrevista com Grant Morrison?http://newsarama.com/foruns/showthread.php?s=&threadid+12774



Posted by Anônimo Veneziano at 10:24 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAnônimo Veneziano
OOPS, engano! No final do enderêço é =12774, não +12774. Devo ter usado a tecla shift.Posted by Anônimo Veneziano at 10:25 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAnônimo Veneziano
Para facilitar, taqui o enderêço correto:http://newsarama.com/forums/showthread.php?s=&threadid=12774



Posted by Anônimo Veneziano at 10:25 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAnônimo Veneziano
Valeu, Anônimo! Eu já tinha lido, mas obrigado, claro!Aliás, a entrevista é comentada na primeira edição do HyperPOP!, que será enviada esta madrugada. Já assinou a sua newsletter? ; )

Na quinta-feira o mesmo conteúdo estará na página do HyperPOP!, com umas coisinhas a mais.

O esquema vai ser esse: os posts são enviados na madrugada de quarta na newsletter, por e-mail. E um dia depois aparecem na página, com adendos e imagens.

Posted by Alexandre Mandarino at 10:26 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAlexandre Mandarino
...estou achando o FW cada vez mais perfeito para o papel... vende como roteiro pra róliudi, hehe.Posted by ll at 10:27 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered Commenterll
O Forest tá bem no papel, né? Também, foi escrito pra ele ; ))))))))))))))))Posted by Alexandre Mandarino at 10:27 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAlexandre Mandarino

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