145 Gramas

Noir e pulp nas ruas de uma Nova York arcade. Por Alexandre Mandarino.

About

Alexandre de Jarém Mandarino é escritor, jornalista e tradutor. Abandonou o mundo das redações, onde viveu por 15 anos, para se dedicar (quase) exclusivamente a escrever o que mais gosta: ficção. Além disso, escreve ocasionais ensaios e resenhas, cria breakbeats com seu projeto de música eletrônica Chip Totec, fotografa mundos arquitetonicamente solitários e se mete a fazer coisas ligadas a sound art, games, ambient, vídeo e o que mais possibilitar opções estético-narrativas.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 3

Normalmente não me impressiono com a mercadoria, mas confesso que a foto me deixou perturbado. Percebendo minha expressão, Ted diz, com certo prazer:

- Sim, é Jock Rigazzalli.

Chris Penn
Chris Penn é Jock Rigazzalli

Eu levanto os olhos da foto nas minhas mãos e encaro Ted.

- Ted... isso pode dar a maior merda. Jock Rigazzalli é...

- Sim, eu sei muito bem quem Jock Rigazzalli é. Merda, Williams, quem dá ordens aqui? Eu sei quem é esse cara. Você deve tá pensando “é isso, Ted ficou maluco”, mas garanto que isso é a etapa final de um plano que tracei há muito tempo.

Fico calado, porque sei muito bem o resultado dos “planos” de Ted. Pouca grana entrando, muita saindo, um escritório acabado e poucas perspectivas de crescimento. Ted “Payola” é a Parmalat dos mafiosos. Eu olho pro tampo da mesa à minha frente. Se Ted se der mal, estou sem trabalho. Sou bom, mas na minha idade sou considerado velho para esta carreira. Só peixes pequenos e de projeção local, como Ted, usam os meus serviços. Se meter com Rigazzalli é loucura. Só consigo dizer:

- Ted...

- Agora, olha aqui. Rigazzalli vai embarcar hoje à noite pro Caribe. O Paul Pirulito, lembra, aquele magrelo que adora dar o rabo, nosso informante na American Airlines, me disse que Rigazzalli vai embarcar às 10 da noite. Precisa chegar no JFK às nove pro check-in. A Maggie, empregada dos Cipriani, vizinhos dos Rigazzalli, descobriu com a Maria, a arrumadeira da casa do Jock, que ele vai passar às oito na casa da ex-mulher, no SoHo, para uma breve despedida. Vai ser a única hora e o único lugar que aquele puto vai estar sozinho, Williams. Naquele apartamento do SoHo. O cara precisa conversar com a mulher. Os gorilas dele vão ficar no corredor, do lado de fora da porta.

- Grande. E como eu entro no apartamento? - pergunto.

- Eu sei lá. Sei lá como você trabalha.

Tento mais uma vez:

- Ted, quem matar Jock Rigazzalli está fora de cena. Definitivamente. - eu quase digo “você não tem tamanho para brincar com isso”, mas fico quieto.

- Não, nada disso. A família Rigazzalli tá nas últimas. Com a morte do irmão dele, Jack, na semana passada, não tem mais ninguém pra manter as atividades deles unidas se Jock desaparecer. É tranquilo, Williams. Depois disso, é só tomar conta dos destroços e aí vai ser mais grana entrando, mais coisas rendendo em diferentes lugares de Nova York. E, olha só, eu tô te pagando pra isso, não é como se eu tivesse pedindo teu conselho ou algo assim.

- Ted, olha...

- Não, é. Você tá agindo como se eu fosse uma criança. Eu sou Ted “Payola”, porra.

- Tá OK, tá OK. Você paga, você manda. Mas te digo uma coisa: você sabe que por mim ninguém vai saber que você foi o mandante. Então, se carros cheios de mafiosos começarem a rodar por aqui, procurando você, não vai achar que eu abri o bico ou...

- “Mad”, eu sei o que você pode ou não fazer. Você trabalha pra mim há dez anos. Eu sei que não faria isso.

Sempre digo as coisas da forma errada e na hora idem. Levanto da cadeira, pego a foto - como se eu precisasse dela - e me despeço. Ted me olha de modo estranho. Quando passo pelo corredor, Andrea está lá, me encarando. Desço as escadas sem falar nada.

Agora é só relaxar, se for possível. São quase meio-dia. O trabalho é às oito, mas preciso chegar lá às sete, para fazer o que planejei. Vou almoçar e depois dar uma cochilada em casa. O Nero’s deve estar aberto.

Estaciono o Arbuckle em frente ao restaurante. Assim que passo pela porta, sou recebido com uma saudação do velho Nero.

- Williams! Muhammad Williams!

Nero Goldstein é o único cara que não ligo que me chame pelo meu verdadeiro nome. Excelente pessoa. Conheço o sujeito há uns 15 anos e almoço aqui de vez em quando.

Anthony Zerbe
Anthony Zerbe é Nero Goldstein.

Me sento no balcão mesmo, ao invés de escolher uma mesa. Talvez tenha sido sorte fazer isso. Dali, vejo quatro caras estranhos, vestindo ternos pretos, sentados em uma mesa na lateral, perto da janela. Nero é excelente pessoa, mas gente com grana não vem almoçar no Nero’s. Ele aguarda, sorrindo, que eu faça o pedido. Eu peço frango e uma Coca e depois pergunto para ele, em voz baixa:

- Quem são aqueles caras lá no canto?

Ele se volta, discretamente, e então me diz:

- Nunca estiveram aqui antes. Mas o Tim sabe quem são. - Tim é o assistente de cozinha de Nero, um moleque magrelo de 19 anos, também de origem judaica. Nero baixa ainda mais a voz antes de continuar:
- Ele me disse que são capangas de Jock Rigazzalli. É, o chefão.

E então se afasta para mandar prepararem meu almoço.

Os capangas de Rigazzalli, aqui? Logo hoje?

Eu avisei ao idiota do Ted.

Reader Comments (3)

Está mesmo uma boa 'pulp fiction', deixa um bela curiosidade, estou só esperando o que vem amanhã... e me lembrou um pouco um filme que adoro, "Ghost Dog".[]s!Posted by ll at 10:28 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered Commenterll
Legal! Valeu, LL! Estou tentando fechar sempre com algum suspense, pra deixar mais interessante. Adoro Ghost Dog também! Com certeza tá me influenciando nessa história.Posted by Alexandre Mandarino at 10:28 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAlexandre Mandarino
Great site and great information.

Jacob

Posted by Jacob at 10:28 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterJacob

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