145 Gramas

Noir e pulp nas ruas de uma Nova York arcade. Por Alexandre Mandarino.

About

Alexandre de Jarém Mandarino é escritor, jornalista e tradutor. Abandonou o mundo das redações, onde viveu por 15 anos, para se dedicar (quase) exclusivamente a escrever o que mais gosta: ficção. Além disso, escreve ocasionais ensaios e resenhas, cria breakbeats com seu projeto de música eletrônica Chip Totec, fotografa mundos arquitetonicamente solitários e se mete a fazer coisas ligadas a sound art, games, ambient, vídeo e o que mais possibilitar opções estético-narrativas.

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Domingo
Nov282004

145 Gramas - Capítulo 4

Os minutos passam tensos, enquanto vigio os quatro gorilas de terno. Para minha sorte, não sou conhecido pelos altos escalões da Máfia, nem pelos seus capangas; para meu azar, estão longe e não consigo ouvir o que dizem. Penso na razão de estarem aqui até que sou interrompido por Nero, que traz na mão um prato contendo pedaços de frango com uma ótima aparência. Um segundo depois, Nero e seu sorriso trazem a minha Coca e começo a comer. Nero se aproxima do balcão e, com seu jeito reservado e simpático, puxa assunto.

- E como vão as coisas no escritório, Muhammad?

- Err... Vão bem. O mesmo de sempre, sabe?

- É... posso imaginar. Sabe, Muhammad, desculpe a franqueza, mas você é um dos meus fregueses mais antigos - come aqui há vários anos, já até perdi a conta. Então, perdoe a liberdade em falar sobre isso, mas você não parece ter sido feito para um serviço burocrático, sabe? Como você mesmo me disse aquela vez, meses atrás: um cubículo apertado, olhando para papéis o dia inteiro. Você deveria começar a se preocupar em juntar algum dinheiro, se possível, e tentar abrir seu próprio comércio. Falo por experiência própria, é uma vida agradável. Claro, sem grandes luxos, mas muito tranquila.

Eu finjo que estou atento à sua conversa, mas estou de olho nos homens de terno. Eles parecem estar acabando de comer. Eu engulo o frango com mais pressa.

- Não o estou incomodando, né? - Nero percebe o vigor renovado com que como os pedaços.

- Não... Claro que não, Nero. Você sempre foi um bom amigo.

Ele sorri:

- Bom. Mas pense no que eu lhe disse, Muhammad. Um futuro mais tranquilo.

Os homens de terno pedem a conta e Nero caminha até a mesa deles. Aproveito para terminar meu almoço e engulo o que sobrou da Coca. Deixo o dinheiro sobre a mesa e digo para Nero, que já vinha voltando:

- Preciso ir, Nero. O dia hoje será cheio. Ah. É... obrigado! Prometo pensar no que disse. Acho que você tem razão.

- Pense, sim.

Saio do Nero’s e entro no Arbuckle. Coloco meus óculos escuros. Então, do nada, vem a impressão de que o conselho de Nero parecia conter algo mais. Será que ele desconfiava do que eu realmente faço? Talvez... talvez não. Ainda assim, mesmo que desconfie, tenho certeza de que seu interesse era legítimo. Um futuro tranquilo... É. Não seria mau. Mas como? Não existe previdência nem aposentadoria no meu ramo. A única chance é conseguir uma bolada - o que será muito difícil. Encare a realidade, “Mad”... seus melhores dias são coisa do passado.

Estes pensamentos melancólicos são cortados pelos quatro homens, que saem do restaurante. Olham rapidamente para os lados e entram num luxuoso Mazda preto, estacionado na esquina. Eu estou mesmo velho; nem reparei no carro antes. Ligo o Arbuckle, dou um espaço de 100 metros e começo a segui-los. Mas parece que meus medos eram infundados: o carro vai na direção oposta à do escritório de Ted. Sigo à distãncia, por mais alguns quarteirões, até ter certeza de que estão indo embora. É... talvez estivessem ali por mera coincidência. Talvez.

Bom, são uma e quinze da tarde. Dá tempo de voltar para casa e dormir mais uma ou duas horas. Dez minutos depois, paro o Arbuckle no seu lugar de sempre. Quando fecho a porta do carro, me arrepio por um segundo ao pensar que o automóvel talvez fosse meu único amigo. Balanço a cabeça e afasto a idéia. Havia o Nero. Eu o via uma vez a cada quinzena ou algo assim, mas... E havia também... Bom, estou com sono, é isso. Andrea achou que era uma desculpa, mas minha coluna realmente está pior a cada dia e mal preguei o olho a noite toda.

Entro no meu prédio. O edifício está estranhamente silencioso. Logo estou de bermudas, em meu quarto. Pego o despertador e me preparo para ajustá-lo para tocar às quatro e meia da tarde, mas aí me lembro que estava falhando ultimamente. Resolvo usar o celular, para garantir. Posso estar ficando um pouco cansado, mas sou um profissional. jamais me arriscaria a furar em uma missão - muito menos uma desse... porte.

Tenho sonhos estranhos... Mal posso escrever sobre eles, porque já me esqueci de quase tudo. É curioso como os sonhos estão marcados claramente em sua alma, logo depois que você acorda, mas tempos depois se tornam tão fantasmais quanto os beijos que ganhou no colegial. Mas lembro que... Sim, é isso. Eu estou andando por um corredor de inúmeras portas de carvalho. Eu abro uma delas e logo depois, lá está outra, fechada. Isso parece durar longo minutos... E eu atravesso porta após porta, em um corredor escuro. Não consigo ver as paredes. Então, em uma certa altura, ouço a voz de Nero no ar: “você precisa de um futuro tranquilo”. “Tranquilo”. “Futuro”. “Tranquilo”. “Tranquilo”. “Futuro tranquilo”.

O som das portas se fechando atrás de mim começa a ficar diferente. Parecem... pancadas. Sim, não são mais o som de madeira batendo no umbral. Há um ruído diferente misturado ao original. Um ruído de... o que é isso? Eu conheço, mas... o que é?

Sim. Um ruído de pancadas. Golpes.

Começo a andar mais rápido. A voz de Nero ainda ressoa nos meus ouvidos; o som da madeira batendo agora parece claramente mesclado ao som de golpes. Mas que golpes são esses? Então, o que eu mais temo acontece.

A porta seguinte não se abre.

Quando toco pela segunda vez na maçaneta, girando-a com força, minha mão parece acionar algum alarme. Um som horrendo, como se saído das profundezas do inferno. E então acordo de um salto, suado e ofegante.

Mas o som ainda está lá.

É então que percebo. O som não é do sonho. É um grito. Um grito horrível, monocórdico e totalmente sem esperança.

Reader Comments (3)

cada vez melhor...suspense!Posted by ll at 10:30 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered Commenterll
ai que nervoso!!!Posted by brontë at 10:30 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered Commenterbrontë
Você está crescendo!

Mas dá uma ansiedade...

Posted by Anônimo Veneziano at 10:31 Saturday 4, 2004
Janeiro 28, 2007 | Unregistered CommenterAnônimo Veneziano

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