Bem escri(o)to
"Vai nesse blog, é muito bem escrito. Gosto bastante".
Essa frase me deixa aterrorizado, por vários motivos. O mais importante desses motivos é o mais simples: sempre que escuto a dica acima, minha mente é tomada por visões aterrorizantes de frases feitas, citações de Leminski e Fausto Wolff, letras do Chico Buarque, frases do Kurt Cobain e ataques ao George W. Bush. Ou ainda provérbios adulterados para soar "engraçados", poemas adolescentes, reminiscências de bebedeiras sem-graça que, na mente do blogueiro-autor, foram verdadeiras orgias dignas de William Burroughs. E sempre torço para encontrar algo diferente.
Mas isso nunca acontece. Clico no link, espero naquele misto de ceticismo blasé e esperança que não quer dizer seu nome, mas... Éhcuot! ("touché" ao contrário; deve existir alguma palavra para esse momento em que sua dúvida é confirmada, a anti-epifania): lá estão as mesmas tralhas de sempre.
Tem um problema muito grave que eu identifico na forma em que a maioria dos blogueiros escreve que é o ranço do segundo grau. É mais ou menos como as letras do Gabriel, o Pensador ou dos Los Hermanos (e, antes deles, dos Engenheiros do Hawaí): o sujeito tem tanta certeza de que "escreve bem", normalmente porque a mãe dele ou alguma antiga professora disseram isso, que passou a acreditar realmente nisso. Chego mesmo a calcular que 97% dos bloogs nacionais que eu já vi apresentam exatamente o mesmo estilo de escrita. O mesmo, sem tirar nem pôr. Tiradas "espertas", uso errado do nonsense como artifício estilístico e uma "rebeldia" que, mesmo quando legítima, é automaticamente convertida em caretice por ser um clichê dos mais gastos e previsíveis.
Não vou apontar exemplos, porque isso é grosseiro, mas até hoje acho que me surpreendi favoravelmente com um total de cinco blogs, no máximo (desses, uns quatro devem ser estrangeiros). Sei lá, falta algo na forma em que a maioria dos blogueiros brasileiros escreve. Falta senso de humor (não o humor negro cínico, porque esse é o mais fácil, ora bolas), falta criatividade e falta um senso de "estou pouco me fudendo" que cai sempre tão bem a qualquer processo criativo. É tudo calculado para soar espontâneo, mostrar uma cultura que se torna redundante - afinal, cultura é obrigação, não é motivo de orgulho social - e tudo termina se apresentando nas pobres páginas em HTML como um imenso compilado de trechos de redações do ginásio.
Duas coisas me impressionam muito quando o assunto é literatura: a capacidade de escrever (boa) poesia e o talento para contar histórias. Nunca encontrei um Paulo Mendes Campos na Internet, só um amontoado de sub-Byrons góticos de um lado e sub-Chicos de outro. Quanto aos Neil Gaimans e Steve Ayletts, encontrei pouquíssimos. Contar uma história é uma arte perdida. Claro, é muito mais fácil travestir seu pobre dia-a-dia de consumidor de cervejas como um pseudo-plot auto-referenciado, sob a desculpa de "autobiografia esperta". Mais fácil ainda é escrever sobre essas cenas tão desinteressantes citando letras do Placebo e "informando" que acabou de ouvir Fugazi.
O padrão que se convencionou chamar de texto "bem escrito" sempre me arrepiou os cabelos, desde a adolescência. Costurar pedaços de estilos tradicionalmente elogiáveis não é lá um bom uso do senso estético, para dizer o mínimo. É jogar para a torcida. É ser o Steve Vai do texto. É usar o fácil, o já elogiado. É ser o professor Pasquale, só que "esperto" e "rebelde" (porque todo mundo, incluindo sua avó e seu vizinho, são ultra-subversivos hoje, neste information overload de tatuagens, piercings, bandas, vômitos, MTV, dissonância e muita, muita, MUITA vacuidade).
Matéria escura.
A matéria escura só serve para realçar as galáxias. Parem de olhar para a matéria escura e vejam as galáxias.
Eu paro de ler quase todos os blogs que encontro pela frente graças ao absurdo senso de auto-importância oferecida pelo texto, um senso impulsionado por uma estranha capacidade de nutrir uma auto-consciência incapaz de se decidir entre o cinismo ou o esforço legítimo. Manter o cinismo é uma ótima forma de não dar a cara a tapa. Mas é preciso tentar, diabos. Criar, escrever, contar, formatar (formatar é muito importante e tão facilmente descartado em prol de uma suposta "esperteza" lírica).
A verdade é que, tendo passado pelos longos anos 80, cinismo é algo que simplesmente não merece o meu respeito. É anti-nietzscheano, sinal de fraqueza ética e estética e tendência à auto-comiseração. E a achar desculpas externas para cada erro que é, no fim das contas, apenas NOSSO. É a isso que se resume a esperteza de redação ginasial do universo blogueiro: piedade umbilical. Medo de passar pela porta, ao invés de ficar ali, parado, lustrando a soleira dela. Admirando as maravilhas do ferrolho ao invés de ver o que está além da fechadura.
Esse cinismo que só serve para alavancar o ego do autor e mascarar seus clichês cansadíssimos é o responsável por um verdadeiro carnaval de bizarrias, como o "falar mal das empresas e dos Estados Unidos". OK, nada mais justo e eu mesmo cansei de fazer isso aqui neste cansado Hypervoid. Mas fazer isso e continuar mantendo sua página no Orkut, a utilizar players portáteis de MP3 e cair na armadilha consumista nossa de cada dia é no mínimo hipocrisia. Nada me irrita mais do que a rebeldia de classe média. Originalidade não é cinismo. Cultura não é um mar de citações. Qualidade não é hermetismo calculado para ser assim. Estilo não é nonsense automatizado. Redação bem escrita não é um texto bem escrito. É só uma maldita redação. E, argh, como eu detesto clichês. Principalmente os de estilo.
É tristíssimo, mas existe na internet nacional um modelo do que é "escrever bem", no sentido mais padronizador deste termo. É ser frio, meio cínico, oferecer piadinhas rasas de humor negro e um distanciamento impessoal que, ironicamente, se disfarça como confessionário auto-biográfico. Todo mundo escreve do mesmo jeito, criando uma tosca mistura de Veríssimo (o lado "bem escrito", cheio de citações e piadinhas) e Warren Ellis (o aspecto frio, cínico e pseudo-subversivo), sem conseguir jamais atingir o patamar destes dois. Será que existe uma linha de montagem de estilos de texto por aí?
Tá na hora das pessoas começarem a posar menos, a fazer o que falam e, principalmente, parar de escrever para a torcida.
Enfim, CRIAR, caralho. Pra regurgitar a gente já tem a TV.
O que me lembra de fechar isso com uma frase genial de um amigo meu: "Blog? Grandes merdas. Blog no Brasil é TV de nerd".
Nossos comerciais, por favor.
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