Contos

Contos de ficção, por Alexandre Mandarino.

About

Alexandre de Jarém Mandarino é escritor, jornalista e tradutor. Abandonou o mundo das redações, onde viveu por 15 anos, para se dedicar (quase) exclusivamente a escrever o que mais gosta: ficção. Além disso, escreve ocasionais ensaios e resenhas, cria breakbeats com seu projeto de música eletrônica Chip Totec, fotografa mundos arquitetonicamente solitários e se mete a fazer coisas ligadas a sound art, games, ambient, vídeo e o que mais possibilitar opções estético-narrativas.

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Domingo
Nov282004

Curvas

A fila de um banco não é um dos lugares mais agradáveis para se passar uma tarde. A testa de Oscar goteja impaciência, enquanto seu pescoço se estica para observar a distância que o separa do caixa e da liberdade. Por diversos motivos, Oscar havia sido obrigado a tirar férias antecipadas. Isso significava descanso imediato, longe dos cubículos burocráticos da repartição; por outro lado, passaria as férias inteiras no Rio, já que esperava contar com mais seis meses de economias para poder fazer a viagem à França. Pior: suas férias haviam caído no mês do Carnaval e, na mente de Oscar, parecia um certo desperdício deixar que seu período longe do trabalho coincidisse com outros dias de ócio em potencial.

Quarenta e cinco minutos tarde adentro e Oscar afinal se vê passando pela porta do banco em direção à rua. Se a paciência é uma virtude, a recompensa divina de Oscar acaba de passar por ele. Ela é morena, cabelos lisos na altura dos ombros. Trinta anos? Mas o impressionante são os olhos: ligeiramente apertados, caindo em uma curva em direção ao nariz. Difícil pensar em amor à primeira vista e clichês semelhantes numa época em que o amor não está disponível nem à segunda, tampouco à última vista - mas um formigamento sobe da base da espinha de Oscar quando olha para a mulher. Mas pensa que não tem chance e, além do mais, o que poderia fazer? Ir atrás da moça falando coisas idiotas?

Quarteirões depois, quase na esquina da Rainha Elizabeth com a Avenida Copacabana, o apartamento recebe Oscar com um bafo quente e um murmúrio de “veja o meu estado, seu cretino - tome vergonha no meio dessa cara e dê um jeito nessa zona”. Ele ignora os choramingos do imóvel e, em expedição em meio à bagunça, consegue encontrar o sofá. Deita-se, pensativo. Com a cabeça no encosto, olha para o céu (ou, ao menos, o puzzle de céu que se permite ser visto pelo Mondrian da janela). Surpreende-se pensando não nas férias, nem no Carnaval que chegava, muito menos na visita aos seus pais, que há meses adiava. Mas na moça de cabelos pretos que vira quase uma hora atrás.
Estranho, nem mesmo quando estava apaixonado pela Ludmila ele pensava em uma mulher assim, dessa forma tão espontânea. E, desde que o casamento com Mila voara pela janela do apartamento na Urca junto com seus livros do Hemingway e CD’s de bossa nova, Oscar não havia sentido nada parecido por nenhuma mulher. Claro, ficava com algumas meninas, mas nada sério. E agora uma mulher que ele havia visto na rua uma vez entra sem bater na mente dele dessa forma.
Oscar decide que é o apartamento, aquela montoeira de livros, revistas, discos, quadrinhos, roupas de baixo e garrafas “decorando” a sala. Só pode ser. E o calor. Ele se levanta e resolve andar pela praia. Quando abre a porta, leva um soco na cara.
Ou ao menos algo parecido com um. Ela está na porta, parada, olhando para ele. A menina da calçada.
As falas passam rápidas, fazendo um sentido vago: sua vizinha, me mudei ontem, desculpa se assustei, quase tocando a campainha, o gás do chuveiro tá vazando, uma olhada rápida, por favor, blá, blá e blá.

Duas semanas depois e Oscar e a menina se beijam sentados ao redor de uma mesa em um quiosque no Posto Seis. Ela é simpática, educada, inteligente e uma delícia na cama. Faz coisas absurdas que Ludmila nem devia saber que existiam, coisas de tantra yoga e pompoarismo. Sempre usa uma combinação de roupas brancas e pretas, com algum detalhe - meia, colar, brinco - colorido. A boca carnuda se comprime quando ela escuta o que Oscar diz, ao passo que alguns fios de seus cabelos negros se divertem caindo em seu rosto em intervalos cronometrados; e sempre parece ser a mesma quantidade exata de fios de cabelos.

E, claro, as curvas em seus quadris. As curvas.

Ela gosta de tudo o que Oscar gosta, com diferenças significativas e certeiras. Ele nunca havia pensado que poderia falar sobre algumas coisas com uma mulher - raciocínio um tanto tosco -, mas com ela falava. E agora, naquele quiosque, falam sobre ela:
- Sabe, eu tenho adorado essas férias e esse tempo com você. Mas você tem de convir que é meio bizarro você não me dizer seu nome, nem depois de duas semanas.
- Oscar, eu já expliquei. É melhor assim. A gente já se conhece, o que importa um nome? Os nomes só servem para focalizar os pensamentos em alguma coisa - e de um jeito meio artificial.
- Então, eu queria poder pensar em você pelo nome. Isso é importante.
- Não, não é. Você pode pensar em mim através do meu rosto.
Ela diz essas coisas rindo, de uma forma tão natural como quem fala “é, acho que vou querer outro chopp, sim”. E Oscar, no final, sempre acaba pensando que não tem mesmo do que reclamar. E daí se não sabe nada sobre a família, passado e nem mesmo nome da mulher que...? O que importa é que ela é fantástica; olhos de quem já viu de tudo um pouco, mas um “tudo” que não foi “tudo” o bastante. E adora Hemingway, dançar, ir ao cinema, beber, trepar. É, melhor deixar como está.
Os dias seguintes vêm embrulhados para presente. Saem para dançar, beber, visitam o MAM, tentam acompanhar uma mostra do Eric Rohmer. E melhor: nada de teatro. Como Oscar, ela também detesta teatro.Os dias de Carnaval passam e os dois não percebem - estão em outro ritmo. Na Terça-Feira Gorda, à noite, em seu apartamento, Oscar resolve arriscar.
- Você é do Rio? Tem um sotaque carioca, mas diferente.
- Pode ter certeza de que meu sotaque é mais carioca que o seu.
O tipo de resposta que ela sempre dá quando o tema da conversa gira sobre os calcanhares e a encara como “assunto”.
- Mas o que você faz pra viver?
Seu rosto toma uma expressão que Oscar não vira nestas últimas semanas.
- ... Tem sido difícil. Vamos dizer que estou de férias este mês. E você prometeu que não ia falar sobre isso.
Oscar a olha, intrigado. Ele dá de ombros e, quando se aproxima para beijá-la, parece ver lágrimas em seus olhos negros.
A Quarta-Feira de Cinzas amanhece nublada. Oscar se levanta para preparar um café, mas seu braço é puxado para trás.
- Volta pra cama. Fica aqui mais um tempo. Você pode.
Aquele “você” soou esquisito, mas o dia estava esquisito. Claro, ia chover. Todo Carnaval era isso, algum dia chovia. No fim da tarde, os dois estão no calçadão. As nuvens pesam como chumbo sobre o horizonte, afundando o mar em um éter de perguntas. A mão dela parece apertar a de Oscar com mais força do que o normal. Finalmente, após minutos em silêncio, ela diz:
- Espero que você me perdoe.
Oscar se sobressalta. Do que ela está falando?
A palavra “perdoe” vem mesclada a um trovão. O vento sopra mais forte. As ruas estão vazias. A chuva cai, afinal, e escorrega em gotas grossas e pesadas. Oscar se prepara para correr até o abrigo mais próximo, mas ela solta sua mão e pára à sua frente. Os olhos mais negros do que nunca, perdidos naquele mar de brancura que os rodeava. Pela primeira vez, Oscar percebe que seus olhos são como as roupas que ela usa. Um claro-escuro de mistério e frescor. Ela se aproxima e lhe dá um beijo doce, sem língua, mas capaz de arruinar um homem. Ela descola os lábios dos dele e dá três passos para trás, sob a chuva forte.
É quando Oscar abre a boca, espantado. Ela parece estar... não, isso não é possível. Ele não havia tomado nada ontem, só alguns chopps e a dose de vodka.
Mas, sim. Ela estava esvanecendo. Sumindo.
Com um tom de voz que poderia ser estudado por anos e anos, ela diz:
- Copacabana.
E desaparece de vez. Seu corpo, as curvas dos quadris, as roupas pretas e brancas somem em fileiras de fumaça translúcida, curvas de névoa e pó P&B se mesclando às curvas das pedras portuguesas do calçadão. Um segundo depois, só o calçadão resta, com as curvas pretas, brancas e terrivelmente sólidas.
No rosto de Oscar, as lágrimas e as gotas de chuva também desenham curvas.
Mas não como aquelas. Nunca como aquelas.

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