145 Gramas - Capítulo 10

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Vendo minha boca aberta de surpresa, Andrea senta-se no sofá, ao lado de Myrtes, rindo.

- “Mad”, a essa altura, se ainda não percebeu, já deveria ter sacado que o mundo é dos espertos.

- Foi você... - eu digo a ele, começando a ligar os pontos. Algo dentro de mim começa a se irritar; aliás, eu já estava irritado, por causa da história do 201. Andrea abre os braços e abaixa a cabeça, como que em modesto reconhecimento:

- É, fui eu. Com ajuda da Myrtes, claro. - E então dá um beijo na ex-sra. Rigazzalli. - Sabe, é aquela história de unir o útil ao agradável. Myrtes queria se livrar do ex-marido para assumir o controle do clã Rigazzalli. Mas ela sabia que isso seria mais fácil se estivesse aliada a um homem, de preferência italiano, porque a máfia, você sabe, é cheia de dogmas. Eu, claro, queria me livrar do Ted; o “Payola” era um artefato do passado, “Mad”... não ia durar muito tempo tomando decisões estúpidas e contratando has-beens como você.

- Por isso você estava tão nervoso com o meu atraso naquele dia em que fui encontrar o Ted... Você queria que eu fizesse o serviço, né? - eu digo, começando a entender tudo. Continuo falando:

- Foi você quem entregou o Ted para os Rigazzalli, depois, claro, de escapulir de lá. E também quem deu meu telefone e nome para a simpática Myrtes, aqui. Vocês são dois filhos da puta.

- Ei, ei, “Mad”, “Mad”... Olha a língua, seu preto nojento, fracassado de uma merda, velho acabado e insuportável.

Levo a mão ao bolso e tiro a automática, apontando para a cabeça de Andrea. Esse negócio tá me deixando puto.

- Você não pode atirar, “Mad”. Seu dossiê tá na minha mão, lembra? Não aqui, na minha mão mesmo, como pode ver - e levanta as mãos espalmadas -; não é para entender da forma imbecilmente literal como entende tudo. O dossiê está com os homens do Rigazzalli, quer dizer, os homens da Myrtes, que agora são os nossos homens. Afinal, eu e Myrtes somos os novos, errr, “responsáveis” pelos maiores negócios da cidade. Seu merda. Atire e você vai ter toda a máfia e toda a polícia da costa leste atrás da sua carcaça escura como cachorros no cio.

Eu guardo a arma e respondo, me esforçando para me manter calmo:

- OK; Myrtes se vê livre do idiota do marido, graças a mim; você se vê livre do Ted; e, claro, o casalzinho de filhos da puta se une em grande estilo, para “mandar” em Nova York. Vocês dois são doentes, sabia? Doentes mentais. - reparo que Andrea fica irritado com isso. - Mas por que simplesmente não mandaram uns gorilas para me matar no meu apartamento ou me entregaram logo pro “Mambo” ou algo assim?

- Porque eu gosto de me divertir, “Mad” - diz Andrea. - E a Myrtes também gosta de umas risadas. Você é o comediante mais à mão no momento. E nos faz rir de graça. O que me lembra, aliás, do nosso negócio. Seu último serviço aqui na cidade, “Mad”. Explica pra ele, Myrtes.

A “sra. Rigazzalli”, que visivelmente está se divertindo muito com toda a palhaçada, fala:

- Eu já te expliquei, sr. Williams. Não matamos você e nem o entregamos à Polícia; em troca, você faz um último serviço por aqui e depois some de Nova York. Sem custos pra gente, claro. O nome está no envelope, sr. Williams. Adeus.

Ela e Andrea se levantam do sofá; Myrtes caminha até a porta e a abre, esperando que eu saia. Preciso me concentrar muito para não sacar da automática e matar os dois cahorros agora mesmo, com vários tecos na testa, mas não quero ser preso. É isso que repito mentalmente para mim mesmo: “Você não quer ser preso, ‘Mad’; não quer ser preso.”

Quando já estou no corredor, ela diz:

- Lembre-se, sr. Williams: se não cumprir este último serviço para nós, será entregue à polícia. Não importa como fará o serviço, mas o homem que mora neste endereço deve ser morto por você - ela diz o “por você” de forma esquisita, quase caindo na gargalhada. O que esses merdas estão achando tão engraçado?

Neste exato momento, acontece algo muito estranho. A expressão de Andrea muda e fica séria de uma forma bizarra, como se alguma ficha acabasse de cair na mente dele. Ele pensa por um segundo e diz:

- “Mad”, vamos lhe dar outra opção. Vamos dizer que você... acabe não matando o cara cujo endereço te passamos agora. Não sei, talvez você... não o mate, eh. - parecia continuar se divertindo com a coisa toda. - Nesse caso, você terá que procurar alguma pessoa comprovadamente próxima a você e matá-la. Simples assim. Mas tem que ser alguém próximo. E não tenta enganar a gente: tem alguns pares de olhos atrás de você nas ruas, a nosso serviço. De qualquer forma, “Mad”, você terá que matar mais uma pessoa antes de sair de Nova York. Mate o cara que lhe indicamos; se não fizer isso, terá de matar um amigo ou alguém próximo a você, o que será muito pior, acredito. Se não matar nem o cara indicado nem um amigo qualquer, então você é que morrerá; ou pelas nossas mãos, ou pelas da Polícia. Adeus, “Mad”. Aguardamos “notícias” suas, de uma forma ou de outra, eh.

Isso me faz lembrar do “baixinho magrelo de terno branco”, mas não pergunto nada. Preciso sair daqui antes que perca a cabeça e detone estes dois idiotas.

Pego o elevador e segundos depois estou saindo do edifício. Entro no Arbuckle e fico sentado por alguns minutos, tentando me acalmar. Filhos da puta. Não tenho motivo nenhum pra matar esse tal sujeito, seja ele quem for. E não vou matar nenhum amigo meu. Mas, se algum presunto não aparecer, como resultado das minhas ações, estou fudido. Vou ser morto pelos capangas do Rigazzalli, pela polícia; vou ser preso e mandado pra alguma cela cheia de psicopatas aidéticos. É, não tem jeito. Vou ter que matar uma última pessoa e então sumir de Nova York pra sempre.

Tiro o envelope do bolso. Minha mão treme enquanto rasgo o lacre. Um bilhete simples, escrito com a letra analfabeta do Andrea, sai lá de dentro. Nenhum nome. Apenas um endereço: Arizona Asylum, em Jersey. Porra, Jersey!? Odeio ir a Jersey. São cinco e meia da tarde. Merda, o Arizona Asylum deve ser um hospital. Até eu chegar a Jersey, vai estar fechado para visitas. Pelo celular, demoro poucos minutos para conseguir o número do tal asilo. Sim, fecham às seis da tarde. Sim, visitas só amanhã, a partir das dez da manhã.

Droga.

Bom, não vai adiantar ir a Jersey agora. E não vou me esforçar tentando entrar em um hospital à noite, escondido, para levar a cabo um serviço cujo resultado final eu ainda não compreendo. Não vou voltar pro apartamento; minhas coisas estão todas no Arbuckle. Finalmente, após rodar a esmo por Nova York por vários minutos, resolvo parar perto da subida da Ponte do Brooklyn. Desligo o carro, me certifico de que as portas estão trancadas e deito no banco dianteiro (minhas coisas ocupam o banco traseiro). Para minha surpresa, durmo perfeitamente.

Acordo com o sol na minha cara, refletido pelo retrovisor. O corpo todo doído e, merda, devem ser umas seis da manhã ainda. Ligo o Arbuckle e rodo novamente pela cidade. Que vida idiota.

Bom, não adianta mais esperar. Entro num bar qualquer e tomo meu café da manhã: ovos estrelados com fatias de bacon e uma xícara de café preto, seguido por uma Coca-Cola gelada. Enquanto como, tenho a estranha impressão de estar sendo vigiado. Olho em volta e não reconheço ninguém, mas o bar está bem cheio. Saio de lá, ligo o carro e finalmente sigo na direção de Nova Jersey.

Às nove e meia, depois de rodar por ruas esburacadas em busca de informações sobre o endereço, finalmente chego à porta do tal hospital. É uma casa enorme e bem antiga, aparentemente bem cuidada; mas nunca se sabe, com esses hospitais de Jersey. O letreiro onde se lê “Arizona Asylum” está imundo, mas o resto do prédio, por fora, parece bastante decente. Que diabos estou fazendo aqui? O que Myrtes e aquele filho da puta carcamano do Andrea armaram pra mim?

Dou uma última olhada para o prédio, pego a automática no porta-luvas, encaixo o silenciador, coloco novas balas e finalmente saio do carro. Neste exato momento, sinto como se alguém caminhasse sobre o meu túmulo. Tranco o carro e entro no jardim do prédio. Olho para o bilhete de Andrea mais uma vez, me certificando do número: “paciente do apartamento 230.”

Na recepção, uma moça estrábica, mas bastante bonita, sorri para mim.

- Sim, posso ajudá-lo?

- Sim... Eu... Eu soube que um velho amigo meu está internado aqui... Arizona Asylum, certo? Será que eu teria como visitá-lo?

- Perfeitamente, senhor. Pode me mostrar alguma identificação?

Tiro do bolso uma velha carteira de motorista falsa, preparada há anos pelo “Historinha”. A moça olha para o documento por alguns segundos e, sorrindo, diz:

- Tudo certo, sr. Peterson. Qual o nome do seu amigo?

- Ele me mandou uma carta, dizendo que está no quarto 230.

A moça sorri - um sorriso estranho. É esquisito como, após um certo tempo nesse ramo, a bondade estampada na cara de alguém parece alienígena para você.

- Perfeito, senhor. Ele vai adorar receber visitas. Sempre tão solitário. Basta pegar o elevador no fim do corredor, sr. Peterson, e então descer no segundo andar. O quarto 230 é o último, no fim do corredor, perto da janela.

Caminho até o elevador e, quando a recepcionista não está olhando, me apresso e sigo pelas escadas. Sempre prefiro usar as escadas, para olhar pelas janelas e ver o que há em volta ou nos pátios do prédio. Reconhecimento do lugar. Neste caso, nada mal: o quarto fica no segundo andar e as janelas das escadas são bastante grandes. Depois do serviço feito, saio do quarto 230, volto para as escadas e desço novamente até o primeiro andar. Aí, saio pelas janelas, que dão para um terreno baldio ao lado do hospital. Mole. É, mole, mas detesto fazer serviços que não entendo.

Saio no segundo andar e o corredor está quase vazio. Uma enfermeira está entrando em um outro quarto, na extremidade oposta, enquanto um faxineiro lava um pedaço do piso de eucatex branco vagabundo.Estou mesmo com sorte: o quarto 230 fica logo ao lado da porta que dá para as escadas.

Escuto por um instante. Nenhum ruído lá dentro.

Giro a maçaneta, bem lentamente. A porta se abre e olho pela fresta. Um quarto arejado, bastante claro. Apenas um paciente. Bom, pelo menos estou com sorte hoje. Se fosse um quarto coletivo, tudo seria mais complicado. Abro a porta e entro. O paciente está deitado na cama, lendo um jornal. Não consigo ver seu rosto. Quando fecho a porta, ele abaixa o jornal e me olha, inquieto:

- Sim? Quem é você?

Quando vejo seu rosto, vejp que não estou com tanta sorte assim. Merda. Não bastasse ser um paciente de hospital, ele é a) um velho de quase 70 anos, pelo visto e b) negro.

Andrea, seu filho da puta. Então, essa era a sacanagem. Você sabe que eu não mato negros.

Os olhos do homem ficam alarmados e ele, com algum esforço, se estica para apertar o botão que chama a enfermeira. Eu saco a automática e aponto para ele. Ia atirar, mas algo me impede. Vendo a arma, ele se imobiliza. Eu digo:

- Melhor não chamar ninguém.

Ele volta a se encostar no travesseiro. Neste momento, algo apita na minha cabeça. Tem mais coisa nessa história. Arrasto uma cadeira de metal até a porta, bloqueando-a, e me sento em uma segunda cadeira, ao lado da cama. Olho para o velho, que está com uma estranha expressão que é uma mescla de extremo pavor e... o quê mais? Não consigo definir.

Com a arma ainda apontada para ele, eu digo:

- Fique quieto. Qual é o seu nome?

Ele me olha e balbucia:

- Que-quem é você? Eu... Eu acho...

- Eu faço as perguntas aqui. Qual é o seu nome?

E então o velho me encara de forma extremamente espantada. Não é mais medo de morrer ou pavor. É algo diferente... um espanto.

Vejo que há uma ficha médica sobre uma mesa encostada na parede. Me estico para pegá-la. Ainda apontando a arma e com um dos olhos no velho, começo a lê-la.

Sabe, há momentos na sua vida que... Que seu coração parece dar uma volta sobre os calcanhares e se esconder para sempre no seu cu. Este é um deles. Não consigo ler a ficha médica. Meus olhos ficam paralisados, fixos nas letras datilografadas que mostram o nome do paciente. Até hoje lembro daquelas letras, gravadas a fogo nos meus olhos. O nome é Mitchell Carruthers Williams.

Quando estou transfixado pelo nome, as letras passeando pelos meus olhos arregalados, um fiapo de voz é ouvido no quarto:

- É... É você, não é?... É Muhammad, não é? Você é Muhammad.

Faço um esforço inconcebível para levantar a cabeça do papel nas minhas mãos e encara o velho. Ele está com os olhos arregalados, um misto de vergonha, medo, espanto, ódio, raiva e incompreensão dançam nas órbitas apagadas.

- É Muhammad. E então, após esses anos todos...

Ele abaixa a cabeça, procurando uma explicação no lençol verde que cobre seu corpo. Volta a me encarar, espanto e ódio e surpresa e confusão:

- É isso o que veio trazer de presente para seu próprio pai? 145 gramas de chumbo na minha cabeça?

Morgan Freeman
Morgan Freeman é Mitchell Carruthers Williams.

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6 Comments

LL said:

tá MUITO bom!
tinha perdido uns 'capítulos', e agora que estou em dia...quero mais!
Posted by LL at 10:44 Saturday 4, 2004

Massula said:

Finalmente descobrimos a (ótima) razao do título!
Posted by Massula at 10:44 Saturday 4, 2004

Lucas said:

Caraca Manda... coloque logo o final aí, homem de Deus!!!
Posted by Lucas at 10:44 Saturday 4, 2004

Anônimo Veneziano said:

+ + + + +!
Posted by Anônimo Veneziano at 10:45 Saturday 4, 2004

Sonja Knips said:

manda logo tudo!!
Posted by Sonja Knips at 10:45 Saturday 4, 2004

David Taylor said:

Very nice site. Keep up the good work.

David Taylor

Posted by David Taylor at 10:45 Saturday 4, 2004

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This page contains a single entry by Alexandre Mandarino published on November 28, 2004 8:27 PM.

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