145 Gramas - Capítulo 11
A ficha médica treme levemente na minha mão. O barulho do papel parece se alastrar por quarteirões e quarteirões. “Não saber o que dizer” fica muito, muito aquém daquela situação toda. Digamos assim: eu queria encolher e ficar ridiculamente pequeno até que meu corpo e toda a minha vida coubessem dentro de uma tupperware. A mistura de constrangimento, vergonha e raiva é algo indescritível, mas tenho certeza de que todos vocês sabem do que estou falando.
O ancião deitado na cama mantém o olhar de total falta de sentido e diz:
- Então... É isso. Você é mesmo Muhammad. E veio para me matar.
Eu balanço a cabeça em um gesto de negação, lento e automático. Tenho medo de ouvir a minha própria voz. Ele continua:
- Se não veio me matar, o que está fazendo aqui - justamente aqui, após todos, todos esses anos - me apontando uma arma? O que está fazendo aqui? O que está fazendo aqui com uma arma? - ele não parecia se decidir sobre qual aspecto mais o assustava. - Só pode ter vindo me matar.
- Eu não vim matar você - minha voz soou como a de um Mickey Mouse rouco e microscópico.
Soltando esta frase ao ar, guardo a pistola novamente no bolso da jaqueta. O que, claro, não muda em nada a situação. O velho recosta no travesseiro e olha para a parede, mas certamente enxergando ali outros cenários, já idos.
Sabe... - o velho balbucia, sem saber também o que dizer. - Sabe, eu... Eu não posso acreditar que meu próprio filho...
Então, ela chega. Claro. A defesa e a justificativa misturadas com a mágoa acumulada na minha carne ao longo de décadas e décadas. Eu falo:
- Seu próprio filho?! O filho que você abandonou com dois anos de idade! Como espera que eu reconheça você? A foto mais nova que tenho de você foi tirada há mais de 40 anos! E confesso que não olho muito para ela, então...
Um breve silêncio e ele torna a falar:
- Muhammad, eu...
- E como sabia que era eu? Como sabia que eu era seu filho?
- Eu... Soube. Alguns segundos depois que o vi entrar. Algo... algo me disse.
- Pfff! Isso é ridículo!
- Eu o vi umas duas vezes, cerca de seis anos atrás. No bilhar do velho Travis, em duas noites diferentes. Foi Travis, aliás, quem me mostrou quem você era, de longe.
- De longe... O seu “de longe” é o mais perto que esteve de mim em quatro décadas. E Travis, hein? Ele me disse que tinha visto você no Arizona ou alguma merda de outro lugar igualmente desgraçado. Arizona! E por que não me mostrou quem você era? Eu nunca o vi por lá. Aliás, nunca o tinha visto até hoje, com exceção daquela foto velha e amarelada. Isso...
Eu paro, sem saber se vou embora, se converso com ele, se sigo até o prédio de Myrtes e mato aquela vagabundo e o viada do Andrea, se sumo e esqueço toda essa merda... É novamente ele quem quebra o silêncio.
- A culpa é minha, Muhammad.
- Sério??
- Não, me escute... É difícil dizer isso e acho que não há mais tempo para que a gente entre em todo aquele negócio de “eu não devia tê-lo abandonado” e tudo isso. Nós dois sabemos disso. Mas o que estou dizendo é que a culpa é minha por você... ser o que é. Fazer o que faz.
Eu o encaro novamente, atônito. Como esse cara tem coragem de ainda por cima me dizer isso?
- Muhammad, eu... tinha vários problemas. Foi melhor para você e para sua mãe que eu desaparecesse, entende? Às vezes é melhor que fiquem apenas duas pessoas que se amam, sem nenhum... ninguém para atrapalhar.
- O que você quer dizer com isso?
- Quero dizer que eu era um alcoólatra, um inútil. Eu bati em sua mãe algumas vezes. Poucas, pode acreditar - e nada muito sério. Ao menos, não para os padrões de hoje, quando as pessoas se matam em suas casas... Mas achei melhor me afastar de vez. Eu saí de Nova York e não voltei para cá até sete anos atrás. Desde então estou aqui, nesta clínica. Ah, e o Travis lhe disse a verdade: ele não estava falando do Arizona, mas do Arizona Asylum. O filho dele está há anos internado no andar térreo e ele é a única pessoa que me visita, umas duas vezes por ano. Se tivesse ouvido com atenção a conversa dele, teria entendido que ele se referia a este hospital, não ao estado do Arizo...
- Foda-se o Travis! Foda-se o filho dele e aquela maldita sinuca dele e todo aquele papo escorregadio e chato dele. Foda-se tudo isso! Ele devia ter me dito!
- Não, ele disse... ou tentou dizer. Fui eu que pedi que ele não lhe contasse.
Eu balanço a cabeça, sorrindo sem acreditar. É quando ele faz algo surpreendente, que me faz parar de falar. O velho leva as mãos ao rosto e começa a chorar.
- Eu sempre fui um perdedor, Muhammad. Tudo que eu tentei fazer... Já ouviu falar em Midas? É o rei que transforma em ouro tudo o que toca. Bom, eu era um Midas, de certa forma. Tudo o que eu tocava virava merda. Eu era um perdedor. Sempre bêbado, andando com idiotas. Eu era o homem que tinha Muhammad Ali como ídolo e que só conseguia bater na própria esposa. O que queria que eu fizesse além de sumir? O que queria que eu fizesse??!
Parou por uns segundos, fungou alto e continuou:
- Eu sou um perdedor. Sempre fui um perdedor. Eu já havia arruinado a vida da sua mãe, mas não queria que meu filho fosse um perdedor, também. Eu me afastei para que você não me tivesse em casa, um farrapo patético, para tomar como exemplo. Eu desapareci para que você não virasse também um perdedor, um fracassado. Sabe, estou há sete anos neste quarto. A minha aposentadoria mais o seguro social servem apenas para pagar o hospital e a comida. Minha única distração diária é ler este jornal, que é comprado para mim de favor pela enfermeira White, que tem pena de mim. Eu não quero que você vire isso. Você não pode deixar que tenham pena de você, não pode virar um perdedor.
O silêncio é mortal. Eu olho para o chão, tentando me encontrar ali, nas ranhuras do piso. E então digo:
- Meio tarde para isso...
O velho me olha de uma forma estranha, como se quisesse se aproximar. Ele quase começa a levantar um braço, mas para imediatamente. E então diz:
- Saia daqui, Muhammad. É muito melhor que você continue sem um pai do que ter a mim como pai. Vá embora, por favor.
- Escute...
- Não quero que meu filho me veja neste estado! Eu sempre estive em estados semelhantes!
- Você foi embora por orgulho, então!
- Não diga bobagens! Eu fui embora para salvar a sua mãe. Para salvar você! Não entende? Eu fui embora para que pudessem viver. Para que você se tornasse alguém, longe de mim. E agora vá embora! Não quero saber o que está fazendo e como veio até aqui com uma arma, não quero saber mesmo! Mas não seja um perdedor! Não seja como eu! Agora, some daqui.
Dizendo isso, ele estica o braço e aperta o botão da campainha, chamando a enfermeira.
- Vá embora. A enfermeira White deve chegar em um minuto e viu pedir que ela chame os seguranças para tirá-lo daqui. - a voz era envergonhada, morta, chorosa e pequena.
Eu olho para ele pela última vez, me levanto e abro a porta para ir embora. Antes de eu sair, ele diz novamente:
- Não seja um perdedor.
Preferia não ter ouvido esta última frase. Desta vez a entonação com que disse isso me deu arrepios. Eu fecho a porta e caminho até as escadas.
Eu preciso matar este homem, né? OK. Alguém vai pagar por isso. Algum cachorro canceroso vai mesmo ter que pagar com isso.
Eu dou um bico na porta das escadas, escancarando-a. Não quero passar pela portaria novamente. Pego um rôdo encostado na parede, entre os lances de escada que levam para o térreo e começo a bater com ele na janela, até que o vidro se espatife. Continuo batendo com força, até que os cacos todos se soltem da moldura e além, até que o cabo de metal do rôdo se entorte. Então, subo na janela e pulo com força até o terreno baldio vizinho ao hospital.
Dou quatro ou cinco passos, sem saber o que fazer e a quem atingir com o meu ódio e então me sento no chão de terra batida, encostado na parede do hospital. Algum paciente está ouvindo Strange Fruit, de Billie Holiday. A música chega em volume bem baixo - e isso de algo forma me perturba. Dizem que quando se está nervoso é melhor que se pare e pense. Isso geralmente acontece comigo, mas neste momento foi um erro. Um grande erro. Quanto mais penso nessa história toda, mais a minha raiva aumenta. Preciso parar de pensar nisso, me mover, continuar andando. Mas faço o oposto: fico sentado ali por quinze, vinte minutos, pensando na merda. A maldita merda escura e fedorenta que é a minha vida, que é Nova York, que é esta profissão ridícula, a merda que representa e incorpora todos os filhos da puta do mundo na minha cabeça; Ted e sua idiotice megalômana; Andrea e sua escrotidão; Myrtes e seu sorriso cretino; Travis e seu bilhar fedendo a urina; a Sra. Williams e a mania de ter o mesmo nome que eu; filhos da puta, alguém vai ter que pagar por isso. Não estou passando por isso tudo a tôa. Alguém vai ter que pagar por isso.
Andrea. Andrea é o primeiro. Vou matar aquele cara de uma forma inédita, tenho que pensar nisso. Queria poder matá-lo mais de uma vez, sentir ele morrendo. Queria poder enfiar as balas com as mãos na testa dele, para sentir melhor sua vida de merda escorrendo pelo seu corpo. Me levanto decidido, os olhos fixos no nada, sem nem mesmo piscar. Começo a caminhar até o Arbuckle, quando ouço uma voz atrás de mim no terreno baldio:
- Negro! Ei, negro!
Quem é o filho da puta agora? OK, cara, não sei quem é você, mas você vai morrer.
Eu me volto e - bom, lá está ele. O baixinho magrelo. E é verdade sobre o terno branco. Que coisa mais escrota.
- O que você quer, seu merda? - eu levo a mão até o bolso, para sacar a pistola. Mas ele é mais rápido e em um segundo está com um Colt 45 na mão, apontando para mim.
- Calma, negro. - sua voz é aguda e irritante. - Calma, negro - ele repete, como quem está domando algum animal ou algo assim. Eu vou matar esse cara.
Ele ri e me pergunta:
- Sabe quem eu sou?
- Um cadáver?
Ele sorri e cospe no chão algum líquido verde-escuro.
- Não. Meu nome é Waters.
Waters...? Onde foi que ouvi esse nome? Claro, Waters. É o tal psicopata da Louisiana, o cara ex-Ku Klux Klan que o Ted contratou pra matar o tal negro do posto de gasolina de Jersey depois que eu recusei o serviço. Só pode ser esse merda. E agora entendo porque as palavras do Nero no bar dele me soaram estranhamente familiares: “saia da cidade, procure algum colega de trabalho do Texas”. Foi só um conselho inocente, claro, mas como ele tinha acabado de falar desse merda que está agora na minha frente, meu inconsciente deve ter me avisado. Droga, eu preciso ser mais esperto. Devia ter procurado saber quem era esse cara antes e por quê ele tava me procurando. Mas não tive tempo, eu... Por que tenho de ser sempre um perde...
Eu espanto estes pensamentos, mas eles escapam a tempo de vir de encontro à minha raiva e frustração, alimentando-as.
- Que foi, negro? - ele chega mais perto e pára a dois metros de mim. Ninguém vai ver nada neste terreno abandonado. Eu não posso morrer aqui.
- Sabe, eu tô de olho em você há um tempinho. Não queria realmente te encontrar de verdade, claro. Sou um cara higiênico e fico longe de animais da sua côr. Mas Andrea Porrazzo me deu uma boa grana para impedir que você saísse da cidade antes que ele e a sra. Rigazzalli tivessem tempo de armar este entretenimento pra você. Ele me falou do acordo, entende? Você tinha que matar o outro negro aí do hospital. Desconfio que você não fez isso, por isso tive que me mostrar. O que me incomoda e me deixa meio nervoso, porque a comunicação com os símios é sempre tortuosa.
Ele ri e diz:
- Bom, você sabe o que tem de fazer agora, não? Ou melhor, sabe o que eu tenho de fazer se você se recusar, né? Ou está difícil pensar?

Tim Roth é Waters.
(Não perca amanhã o capítulo final de 145 Gramas).
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Tum tá tum tá tum tá....
Posted by Anônimo Veneziano at 10:46 Saturday 4, 2004
Que rufem os tambores...
Posted by Massula at 10:46 Saturday 4, 2004
mais, mais...
Posted by Sonja Knips at 10:47 Saturday 4, 2004
Já é "amanhã"...
Posted by Anônimo Veneziano at 10:47 Saturday 4, 2004