145 Gramas - Capítulo 5

| | Comments (3) | TrackBacks (0)

Levanto de um salto e me visto apressadamente. O grito diminui até desaparecer. Quando termino de colocar os sapatos, olho para o relógio: são quatro e quinze. E então o grito retorna, desta vez ainda mais alto. Pego a minha pistola no bolso da jaqueta que estava usando de manhã e caminho até a porta.

Abro bem devagar. Ninguém à vista. Coloco a pistola no bolso de trás da calça, jogando a camiseta por cima. Saio ao corredor. Silêncio novamente. Tudo o que posso ouvir, bem ao fundo, muito baixo, é o som de um reggae, certamente oriundo do apartamento daquele vizinho do quarto andar. Quando me preparo para olhar pelas escadas, levo um susto.

O grito novamente, desta vez mais baixo. E agora tenho certeza de onde vem. O apartamento 201. No mesmo andar que o meu, ao fim do corredor. Corro até lá, tentando não fazer barulho. Hesito por um segundou ou dois e então bato na porta.

O som das pancadas na madeira parece ter provocado um estranho e completo silêncio. Passam-se vários segundos. Bato de novo, com mais força. Dez segundos depois, ouço a chave girar do outro lado. Uma mulher extremamente magra, com enormes olheiras e olhos vermelhos, me olha extremamente assustada. Ela pergunta:

- S-sim?

Penso um pouco, aproveitando para olhar além dela, dentro do apartamento, e então respondo:

- Ouvi alguns gritos. Está tudo bem?

Ela parece realmente surpresa:

- Gritos? - ri nervosamente - Não, gritos? Tenho certeza que não. O senhor deve ter se enganado.

Ela está mentindo. Olho bem no fundo de seus olhos azuis e então digo:

- Eu sou o vizinho do 205. Tem certeza de que está tudo bem? - nesse momento, penso ouvir sussurros abafados dentro do apartamento. - Se precisar de ajuda...

- Não, não... Está tudo bem! Realmente bem. O que poderia estar errado? - o riso nervoso novamente.

Olho para ela, tentando deixar claro que sei que ela está mentindo. Então desisto:

- Bem... Boa noite.

- Boa noite - e tranca novamente a porta.

Mas desta vez tudo continuou em silêncio. É quando me lembro do que a Sra. Williams havia dito sobre o menino, Mike. Ela havia dito 201? Não me lembro agora. Sempre evitei contatos com os vizinhos, por motivos óbvios. Acho que todos pensam que sou um caixeiro-viajante - ou em escritor, algo assim, que faça seus próprios horários. Melhor que continuem pensando.

Volto intrigado e me sentindo estranho para o meu próprio apartamento. No instante em que toco a maçaneta por dentro, para fechá-la, escuto um som horrível, agudo, de forma exatamente igual ao meu sonho. Tenho um sobressalto, assustado, e puxo a arma do bolso. Demoro um ou dois segundos até perceber que é o meu celular, sobre a escrivaninha. São quatro e meia e ele está tocando, como eu programei.

Estou realmente ficando velho.

Às cinco horas estou dentro do Arbuckle, indo visitar o Matt “Historinha”. “Historinha” é um velho amigo, quer dizer, colega de trabalho. Ele me arruma roupas e outras coisas e, para o que tenho em mente, vou precisar.

Às quinze para as sete, saio do apartamento do “Historinha” com dois pacotes. Rumo para o endereço do apartamento da mulher de Rigazzalli, que me havia sido passado por Ted. Estaciono o Arbuckle em uma viela sem saída, de tijolos vermelhos, ao lado de enormes caçambas de lixo. Nestes momentos é que não me arrependo do Arbuckle não ter uma garagem: o relento é o melhor dos disfarces e ele se encaixa perfeitamente naquele cenário, sem chamar muita atenção.

Mas, claro, era perto o suficiente da rua para que eu tenha acesso rápido a ele. Estou a três prédios do apartamento da ex-Sra. Rigazzalli. Myrtes Rigazzalli era uma secretária ou algo assim de Jock e havia se casado com ele vários anos antes. Estavam separados há três, mas ainda se falavam mais ou menos cordialmente, pelo que dizia a ficha entregue por Ted. Gostaria que ele tivesse me dado uma foto dela também.

Olho em volta e vejo que há um McDonald’s na esquina. Entro e vou em passos rápidos e discretos até o banheiro. Carrego comigo os dois pacotes entregues por “Historinha” e minha maleta de sempre. Quando saio de lá, sou um novo homem: visto um macacão cinzento da companhia telefônica. Minhas roupas estão dentro da mala, junto com o... equipamento.

Chego até a entrada do prédio e... droga. Um porteiro. estava contando que não houvesse ninguém na portaria. Burrice. Estou ficando velho. Bom, agora é tarde. Vamos lá.

Passo pela porta e me dirijo até o velho. É um porto-riquenho e me olha com curiosidade.

- Sim? - ele pergunta.

Eu abro um sorriso e digo, de forma meio rápida, para confundi-lo melhor:

- Boa tarde, senhor. Sou da companhia telefônica - mostro a ele uma identificação falsa, cortesia do “Historinha” e seus vários contatos - e recebi uma chamada para dar uma olhada no aparelho instalado no apartamento... - desta vez, finjo olhar o número em um caderninho velho - ...801. Isso.

- Um minuto.

O velho pega o interfone, aperta algumas teclas e aguarda. Ele explica, escuta um minuto e então se volta para mim:

- A sra. afirma que seu aparelho está funcionando perfeitamente, senhor. Ela garante que acabou de fazer uma ligação e que não fez nenhuma chamada por reparos.

- Sim, aí é que está. O problema não é perceptível do aparelho dela. Recebemos uma reclamação de uma senhora, que mora no prédio pouco antes da esquina, de que seu telefone estava captando linhas cruzadas. Rastreamos o problema e descobrimos que as chamadas cruzadas vinham deste local, apartamento 801. Isso acontece o tempo todo, sabe? Funcionários mal-treinados ou com má vontade fazem as ligações que nem a cara deles e depois sobra pra gente consertar tudo.

O porteiro explica isso, ao seu jeito, pelo interfone. Após escutar novamente, ele diz, meio sem jeito:

- A sra. afirma que não há linhas cruzadas no aparelho dela. Como isso não a afeta, ela não quer que reparo nenhum seja feito.

- Perdão, senhor, mas lembre-a de que tudo isso é muito constrangedor. A sra. que mora na esquina disse que ouviu longas conversas, antes de perceber que eram linhas cruzadas. Sabe, explique a ela que é uma questão de segurança e privacidade. Não se sabe quem mais pode estar ouvindo - eu retruquei, frisando discretamente a palavra “segurança”.

Como eu esperava, minutos depois estou no elevador, subindo para o oitavo andar. Olho no relógio de pulso: são sete e meia. Se Rigazzalli for pontual, deverá chegar às oito. E ele precisa ser pontual, pois deve estar no JFK às nove. Isso me dá meia-hora para enrolar e mexer nos fios, fingindo que estou fazendo algo. tempo demais. Aperto o botão com o número “7” e desço no sétimo andar. Procuro as escadas que sobrem para o oitavo, sento nos degraus e fumo um cigarro. Quinze minutos depois, estou batendo na porta do 801.

Uma voz estranha, que parece musical de uma forma um tanto engraçada, diz do outro lado:

- Um momento.

A porta se abre, ainda presa pela corrente de segurança. Um olho magnífico, castanho escuro - quase negro - me observa do outro lado. Ela diz:

- Você é o funcionário da tele? Tem uma identificação, por favor?

Eu tiro do bolso do macacão o cartão criado com capricho quase barroco por “Historinha”. A porta se fecha e torna a abrir em seguida.

Laura Harring
Laura Harring é Myrtes Rigazzalli.

- Entre. - ela diz, já me dando as costas, enquanto aponta para um lado da enorme sala. - O telefone fica sobre aquele aparador de canto. Se possível, seja breve, OK? Estou esperando visitas.

E então some por uma porta. Me aproximo do telefone e deposito a maleta no chão. Começo a mexer nela, como quem procura uma ferramenta. Repenso o plano: enrolo por aqui até Rigazzalli chegar. Assim que ele estiver dentro do apartamento, com seus capangas do lado de fora, meto um pipoco na testa dele e corro para a escada de incêndio. Já chequei antes de trocar de roupa e ela dá bem perto da viela onde está o Arbuckle. Se tudo der certo, já estou ligando o carro antes deles entrarem aqui. Já sei. Tento dar um jeito de trancar a porta por dentro depois que ele entrar. Isso vai atrasar os gorilas.

Mal tenho este pensamento e subo o olhar da maleta para a porta de entrada. Tenho um grande susto: um cara de terno preto e cara de zagueiro do Milan está me olhando, seríssimo. Achei melhor nem tentar disfarçar o susto. Digo:

- Ah... Olá. - rio, “fingindo” nervosismo. - Não vi que estava aí.

Ele me devolve um esboço muito pobre e canhestro de um sorriso. Merda. Um capanga dentro do apartamento. Com essa eu não contava. Olho para o relógio. São cinco para as oito. Cinco minutos para bolar rapidamente algum novo plano envolvendo o gorila que está aqui dentro. Solto o aparelho telefônico da parede e penso febrilmente enquanto finjo examiná-lo.

Então, alguém bate na porta. Mafiosos filhos da puta. Sempre adiantados.

É, vai ter que ser no improviso.

0 TrackBacks

Listed below are links to blogs that reference this entry: 145 Gramas - Capítulo 5.

TrackBack URL for this entry: http://www.hypervoid.net/mt-tb.cgi/884

3 Comments

brontë said:

fale logo o que vai acontecer...vai please, entregue o jogo logo...num guento esperar até amanhã... ;)))))
Posted by brontë at 10:32 Saturday 4, 2004

Thiago said:

uauuu...mto legal Alexandre
Posted by Thiago at 10:32 Saturday 4, 2004

Anônimo Veneziano said:

Tum ta tum ta tum ta...
Posted by Anônimo Veneziano at 10:32 Saturday 4, 2004

Leave a comment

About this Entry

This page contains a single entry by Alexandre Mandarino published on November 28, 2004 8:23 PM.

145 Gramas - Capítulo 4 was the previous entry in this blog.

145 Gramas - Capítulo 6 is the next entry in this blog.

Find recent content on the main index or look in the archives to find all content.

Powered by Movable Type 4.21-en