145 Gramas - Capítulo 6
O capanga que está junto à porta leva à mão direita ao bolso, enquanto Myrtes retorna do cômodo ao lado. Ela é observada com atenção pelo gorila enquanto abre a porta. Jock Rigazzalli entra, sorrindo para a esposa. Três novos gorilas estavam entrando junto com ele, mas ele cochicha algo no ouvido de um deles e o trio volta para o corredor. Enquanto Jock anda pela sala em direção ao cômodo contíguo, acompanhado por Myrtes, baixo os olhos para o telefone, que a essa altura está aberto e dividido em duas partes, na minha mão. Sinto seu olhar intrigado me fuzilar as costas e escuto ele perguntar em sussurros para Myrtes quem eu era. Ela explica algo que eu não consigo ouvir e os dois somem no outro cômodo. A porta se fecha e escuto passarem a chave pelo lado de dentro.
Pelo canto do olho, vejo que o gorila inicial permanece no interior do apartamento. Droga. Esperava que ele saísse quando Rigazzalli chegasse. É quando tenho uma idéia.
A sala onde eu, o telefone e o gorila estamos tem três portas: a que dá para o corredor do prédio, por onde eu entrei; uma que dá para o cômodo à esquerda, onde Rigazzalli e Myrtes estão; e uma outra que dá para à direita, para uma espécie de saleta. O telefone fica num canto, perto desta última porta. Levo o aparelho, as peças desmontadas e minha maleta de ferramentas para a saleta e lá executo a primeira parte do plano. Cerca de cinco minutos depois, saio da saleta com um pedaço de fio telefônico na mão. Olho com a cara mais amigável do mundo para o capanga:
- Ei... amigo. Desculpe, mas poderia me ajudar aqui? Eu preciso passar o fio do telefone por cima da porta, contornando o batente, entende? Mas estes prédios antigos são muito altos... Será que se incomodoria de me ajudar aqui? Você poderia segurar o fio sobre a porta enquanto eu verifico se a linha está funcionando.
Ele se aproxima, um leve ar de curiosidade no rosto. Eu passo o fio por cima do batente da porta e peço para que ele o mantenha assim. Enquanto o gorila italiano está com os dois braços para o alto, finjo que vou pegar o aparelho telefônico e apanho na maleta um pesado alicate de cortar fios. Dou com o treco com toda a força na cabeça dele, pelas costas.
Mas, ao invés de cair desmaiado, ele solta o fio que estava segurando e leva as duas mãos ao cocoruto, com uma expressão de dor. Me surpreendo, mas antes que ele possa gritar ou fazer qualquer coisa, aplico uma segunda pancada em sua cabeça. Desta vez ele desaba no chão, como uma versão burra da Torre de Pisa. Rapidamente, arrasto o corpo inconsciente do gigante até a saleta, escondendo-o debaixo de uma mesa.
Espio pela porta e ninguém parece ter ouvido nada. Porra, se eu levo uma pancada daquela na cabeça, eu desmaio; duas, eu morro. O que esses caras têm no crânio, gorgonzola?
Vou na ponta dos pés até a porta de entrada e, tentando fazer o menor ruído possível, giro a chave pela fechadura, trancando-a. Também passo a corrente de segurança e fecho um ferrolho, mais ao alto da porta. Para garantir mais ainda, pego uma cadeira que estava na saleta e a utilizo para travar a fechadura.
Depois, vou até a saleta e abro lentamente a janela. É esta janela que dá para a escada de incênio, que desce até o beco lá embaixo. Oito andares, dezesseis lances de escada. Vou ter que ser bem rápido. Com sorte, os capangas só vão entrar aqui quando eu já estiver quase no térreo. Vou até a maleta de ferramentas e pego o que preciso: a automática e o silenciador e encaixo um no outro. Depois, pego as minhas roupas originais, faço uma bola com elas, coloco-as dentro de um saco plástico, amarro bem e jogo pela janela, o mais longe possível. Caiu a uns 50 metros do Arbuckle. Bom.
É isso, vamos lá.
Bom... um último arranjo. Na primeira parte dessa história, eu disse que algumas coisas eu não conseguiria colocar em palavras. Então, peço a paciência de vocês, mas os próximos parágrafos serão narrados na terceira pessoa. Me sinto melhor assim.
“Mad” Williams levanta a automática. O silenciador se estende até mais alto que a sua cabeça. Ele caminha em silêncio, lentamente, até a porta do cômodo onde estão os Rigazzalli. Levanta o pé direito e, antes de agir, torce para que os dois estejam em pontos separados do quarto.
O pé desaba com força sobre a porta, levando junto todo o peso do corpo de Williams. A cena é patética: Myrtes está sentada na cama, enquanto Jock Rigazzalli está ajoelhado na frente dela, no chão, chorando. Ele se assusta e seu rosto fica ainda mais ridículo.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Três na testa e um no peito, pra garantir. Myrtes ameaça gritar e “Mad” aponta a arma para ela, como quem diz “silêncio”. Os gorilas já estão gritando e batendo na porta de entrada:
“Sr. Rigazzalli??”; “Está tudo bem?”.
Mal “Mad” chega na sala e Myrtes começa a berrar. De um salto, ele alcança a saleta e pula pela janela. Começa a correr escada abaixo. Os segundos passam, tensos. Quando está no segundo andar, os gorilas conseguem arrombar a porta, quebrando as trancas, a corrente e a cadeira. Myrtes aponta em direção à janela e eles correm para a saleta. É quando a primeira parte do plano finalmente entra em ação.
“Mad” havia estendido parte do fio do telefone no chão da porta de comunicação com a saleta, preso por grampos. Bastou o primeiro cair para que os outros dois fossem ao chão, amontoados e gritando palavrões. Quando finalmente conseguem chegar à janela, “Mad” já está a dois metros do saco plástico com as roupas, correndo pelo beco. Assim que se abaixa, sem parar de correr, para alcançar a sacola, tiros começam a zunir por sua cabeça.
Ele corre em zigue-zague até o Arbuckle; entra rapidamente, gira a chave e sai da viela em questão de segundos. Quando olha pelo retrovisor, os capangas estão pulando a janela para a escada de incêndio. Quando chegarem ao chão, “Mad” já estará muito longe dali, no escritório de Ted “Payola”.
É, até que a missão correu bem. Quando estou a uns quinze quarteirões dali, desacelero um pouco, acendo um cigarro e pego o celular para chamar o Ted. Prestem atenção agora, porque desconfio que é a partir daqui que tudo dá errado.
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Demorô!
Posted by Anônimo Veneziano at 10:33 Saturday 4, 2004
São as micro-férias internéticas do fim-de-semana
; )
Posted by Alexandre Mandarino at 10:33 Saturday 4, 2004
Tripudia, vai...
Posted by Anônimo Veneziano at 10:34 Saturday 4, 2004
muuuuuuuuiiiiitooooooooo booooooooom!!!!!!! e nada de férias, viu?! ;)))))))))))
Posted by brontë at 10:34 Saturday 4, 2004
Li todas as partes publicadas até agora duma só tacada e curti. Bacana mesmo.
Mas você pretende depois colocar isso num arquivo .doc, .rtf ou .pdf pra quem quiser baixar e salvar, Manda?
Posted by Pablo Casado at 10:34 Saturday 4, 2004
Valeu, Brontë!!!! E as irmãs, como vão?
Posted by Alexandre Mandarino at 10:35 Saturday 4, 2004
Fala, Pablo! Fico feliz mesmo que vc tenha curtido, cara. Bacana!!
Depois que o 145 Gramas acabar (deve durar umas 15 ou 20 partes, no máximo), ele vai poder sempre ser acessado nesse blog, em Previous Posts aí à direita.
Mas posso também transformar em PDF ou algo assim e colocar na página . É uma boa idéia, não tinha pensado nisso.
Posted by Alexandre Mandarino at 10:36 Saturday 4, 2004