145 Gramas - Capítulo 7
O telefone toca e ninguém atende do outro lado. Bom, Ted deve ter descido pra tomar umas cervejas ou algo assim. Meu coração finalmente começa a desacelerar, junto com o Arbuckle. Apesar das palavras, é muito mais fácil escrever sobre essas coisas do que fazê-las. Bom, grande frase. “Mais fácil escrever do que fazer”. Isso deve ser óbvio. Mas é uma verdade bem grande, porque pra mim fica cada vez mais difícil lidar com essas coisas, do ponto de vista físico.
Eu tô ficando velho - mas acho que já falei isso.
Bom, quer saber? Normalmente eu ligo pro Ted dando as boas novas sempre que termino um serviço, mas se o cara tá ocupado eu vou é pra casa tomar um banho. Não, melhor ainda: vou comprar umas cervejas antes também e então vou pra casa. Tô precisando de uns goles mesmo.
Cara, nem acredito ainda que foi tudo certo.
Mas então me lembro quem morreu. Jock Rigazzalli. Alto escalão da Máfia. Quando penso nisso, soa tão estranho que parece que foi feito por outra pessoa. Bom, o Ted agora que se vire. Vai vir merda da grossa pra cima dele. E ele tá sendo muito otimista se acha que vai ficar com a parte do Rigazzalli na cidade na boa. Com ele morto, a Máfia russa vai vir com tudo pra cima da área dele. Ted vai ter que se virar. Eu disse a ele que não queria me meter na confusão que ia vir com a morte do Rigazzalli.
Paro o Arbuckle no Nero's e desço para comprar umas cervejas. Enquanto me atende, o velho Nero me olha de forma estranha, como quem observa um acidente de carro. Essa expressão esquisita fica uns dois segundos no rosto dele, e então ele pergunta:
- Tá tudo bem, Muhammad?
- Tá, claro. - digo, meio intrigado.
Não resisto e pergunto:
- Por quê?
Nero me observa, como quem mede as palavras antes de falar:
- Teve um cara estranho procurando por você aqui.
- Por mim? Um cara... estranho? Estranho como?
- Esquisito. Sei lá. Era um baixinho magrelo, de voz anasalada e olhar de psicopata. É, era isso que ele tinha... um olhar de psicopata - a voz de Nero baixou lentamente, como quem, aos poucos, se lembra de algo.
Isso é estranho. Um baixinho com cara de maluco? Não me lembro de ninguém assim. Droga, deve ser alguém do Rigazzalli. No mínimo já sacaram tudo e tão me procurando. Mas então o Ted e o Andrea também tão em perigo, porque se me sacaram devem ter sacado que eu trabalho pra eles. Pergunto, nervoso:
- Um baixinho, como? De terno preto, cara de italiano?
- Não, ele não era... - Nero volta atrás e edita estranhamente o que ia dizendo. - Ele não usava terno preto. Pelo contrário: era um terno claro, um bege bem claro. Uma figura muito estranha.
- Nunca viu por aqui?
- Nunca. Nem o Tim - e apontou pro empregado fofoqueiro que parecia conhecer todo mundo da bandidagem.
Nero vai para cozinha do restaurante e fico sozinho no balcão, bebendo uma das cervejas ali mesmo. Eu sempre paro no Nero para esfriar a cabeça depois de um trabalho e ele já sacou que, quando apareço, às vezes, estou meio tenso. Ele já se acostumou a me deixar quieto e sozinho nessas ocasiões. E mais: já aprendeu a diferenciar essas ocasiões. Nero é um cara que percebe longe. Fico ali, bebendo lentamente a cerveja, por cerca de quase uma hora. São quase dez da noite quando me levanto.
Me despeço do Nero, pego um pacote com mais cervejas e volto pro carro. Isso é estranho. Pelo jeito, o tal cara não era da Máfia. Menos mal, significa que ninguém sacou ainda que o serviço foi da parte do Ted. Mas quem é esse cara?
Chego em casa, estaciono o Arbuckle e, pela primeira vez em muito tempo, tiro a lona de proteção da mala e cubro o carro. Não, não era a neve que me preocupava. Mas um Mustang 1977 é bem fácil de ser encontrado. Droga, eu sabia que esse serviço ia fazer o que nenhum outro fez: me deixar paranóico. Bom, ninguém sabe onde eu moro. Nem mesmo o Ted, ninguém.
Mal termino de cobrir o Arbuckle e escuto uma voz familiar atrás de mim:
- Preocupado com a lataria, “Mad”?
Me volto e...
Ah, não. Esse cara, agora, não.
- Boa noite, Rick.
Era o detetive Rick “Mambo” Wood. Numa viatura, dirigida por um mané que eu já vi certa vez na delegacia. Só me faltava essa.

Joe Pesci é o Inspetor-Detetive Rick “Mambo” Wood.
Ele salta do carro, abre a porta traseira e vai para o banco de trás. E então diz, apontando a porta da frente, ainda aberta:
- Entra aí, “Mad”.
Eu sopro com força, olhando pro chão. Depois, olho para “Mambo” e digo:
- Qual é, Rick? Eu tô preso?
- Não, não tá, não. Tá com medo, cara? É só pra gente bater um papo. Eu te trago de volta em quinze minutos.
Sabendo que é melhor levar “Mambo” com jeito, eu faço o que ele diz. Por sorte, deixei a automática no porta-luvas do Arbuckle. Tô limpo. Quer dizer, mais ou menos. O carro velho da polícia começa a ranger, guiado pelo troglodita silencioso, que me vigia pelo canto do olho. E então a voz irritante de “mambo” se faz ouvir:
- Como vão os negócios, “Mad”? Bem, pelo que ouvi.
Eu penso e respondo:
- É... as vendas melhoraram. Natal, você sabe.
- E... no Natal, todo mundo quer um novo cartucho de impressora. Faz sentido. Não é isso que você vende? Cartuchos de tinta?
- Não, eu... conserto computadores, você sabe.
- Ah, é verdade. O da minha sala, lá no Distrito, tem dado uns paus... Não quer ir lá ver o que tá errado? Ah, ah, ah - a risada de “Mambo” era o que ele tinha de mais irritante - Não, tô brincando, cara. Não vou fazer isso com você. Sabe o que é mais engraçado, “Mad”?
- Não, o que é mais engraçado?
- Você.
- Eu? Eu sou engraçado?
- Não, você não é engraçado. Mas tem muita coisa engraçada em você. No Distrito, por exemplo. Sabe, muita gente não para pra pensar nisso... Mas os caras da Máfia que são mais perseguidos pela polícia são os capangas. Esses só fazem merda. Entram em lojas, quebram pernas de velhinhos, destróem balcões, esse tipo de coisa. Dão problemas visíveis, se é que me entende. Então, a gente tem que pegar esses caras. Mas os assassinos...
E parou por alguns segundos, de forma curiosa, antes de continuar:
- Esses a maioria dos policiais tolera. Não gostam, entende? Claro que não. Não como gostariam de um vigilante, por exemplo. Mas alguns assassinos, poucos deles, na verdade... são tolerados. E sabe por quê?
Eu balanço a cabeça, cuidadosamente.
- Por que alguns deles - esses poucos de quem lhe falei - agem, na prática, como vigilantes. Só matam as pessoas que a polícia quer ver morta, de qualquer forma. São poucos os assassinos de aluguel que se enquadram nesse esquema. Mas você sabe disso, né? Pessoas da área de computadores são espertas. - e dá mais uma risadinha, antes de começar a fazer um rol das minhas ações ao longo dos últimos anos:
- Por exemplo, existem assassinos que só matam gente que, porra, ficariam melhor mortas, mesmo. Então, pra que se meter? Sabe, eu lembro de vários, nem preciso me esforçar. O Peter Perninha, aquele manco que traficava crack na porta dos colégios do Bronx... lembra? Ele é um exemplo. A gente não conseguia pegar o cara. E um dia ele aparece dentro de uma caçamba de lixo num beco da Avenida C, cheio de bala. Todo mundo disse: “vigilante”. “Oba!”. Mas eu, não... Eu sabia que não era serviço de vigilante. Era coisa de assassino de aluguel. Guerra de quadrilhas.
E faz mais um de seus silêncios “dramáticos”.
- A mesma coisa com o Paul... como era mesmo o nome? Paul... aquele cara que massacrou a família inteira de mafiosos, em plena Broadway.
- Paul “Amnésia” - lembra o motorista-troglodita ao meu lado, com voz de robô.
- Isso! Paul “Amnésia”... como pude esquecer, ahn? Ah, ah, ah!!
Não tem nada mais babaca que humor de policiais. Caralho, eu quero descer desse carro. Quero ir pra casa tomar minhas cervejas. Já sinto o pacote começar a pingar, as latas esquentando... “Mambo” continua:
- O Paul “Amnésia” também foi uma morte, digamos, bem recebida lá na DP. O cara escorregou e caiu do telhado de um prédio de três andares lá em Hell’s Kitchen, se espalhou todo pela calçada, maior lambança. Mas foi algo esperado. Tranquilo. E vários outros exemplos: Butch “Black Anaconda”, o gigolô... Will “Custer”, o velho psicopata dos Cipriani...
“Mambo” faz um rol de mais de dez antigos serviços... todos meus. O cara conhece todo o meu currículo. Disso eu já sabia, mas ele nunca havia falado de forma tão... explícita, antes. É quando ele diz uma coisa que faz um vento gelado lamber minha nuca:
- Mas tem um limite. Eu até entendo, sabe... Esse é um mundo de regras estranhas. Regras negras. Policiais que gostam de vigilantes. Policiais que toleram alguns assassinos de aluguel, desde que o serviço deles, na prática e involuntariamente, tenha a mesma consequência que a ação de um vigilante. Mas o limite é claro. Pelo menos, pra gente sempre é claro. Infelizmente, pra eles não é.
Quando estou quase perguntando “que limite é esse?”, “Mambo” finalmente diz:
- O limite é quando chega na grana. Uma coisa é limpar as ruas, entende? Poupar tempo e trabalho pra gente. Outra coisa é tirar doce da boca de quem tá acostumado. Sem falar que alguns doces são grandes demais, “Mad”... Doces do tamanho de Jock Rigazzalli, por exemplo. Quando um cara desses cai, é que nem um dominó. Tudo cai também. Inclusive policiais. Sabe, “Mad”? Já começou a cair.
Mais uma vez, o intervalo irritante.
- A gente passou na sua casa por acaso, sabe? Juro! Não estamos precisando do serviço de nenhum “técnico de computador” nem queremos comprar cartuchos de tinta. Eh. Não, a gente passou lá, no caminho de volta do escritório de Ted. Ted “Payola”. Conhece?
Ele me olha, com ar curioso e divertido. E então volta a falar:
- Bom, se não conhece, sinto muito. O escritório dele tava todo quebrado. Os pedaços de Ted “Payola” estavam por todo o canto. Uma das mãos estava lá embaixo, na calçada. Ah. Você acredita nisso? E não foi só ele. A secretária, os capangas, todo mundo que tava lá foi morto da forma mais escrota possível. Uma coisa muito feia de se ver. Agora, isso é o tipo de coisa de que não gostamos. Ted “Payola” mandou que matassem Jock Rigazzalli. Os caras de Rigazzalli esmagaram Ted como a barata escrota que ele era. Mas isso não vai parar aí. Eles vão querer ir até o final. E lembra do que eu falei do doce? Esse doce ia pra boca de muita gente na polícia, também.
Minha mão direita, por instinto, aperta a maçaneta da porta do carro.
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FUDEU!
Posted by Pablo Casado at 10:37 Saturday 4, 2004
veeeiiiissshhhh
Posted by Thiago at 10:37 Saturday 4, 2004
Tá na roça Forrest!
E com a enxada nas costas!
Posted by Massula at 10:37 Saturday 4, 2004Tá na roça Forrest!
E com a enxada nas costas!
Posted by Massula at 10:37 Saturday 4, 2004
Agora eu entendo porque "Hide" foi o nome escolhido pra representar a essência da maldade humana.
Manda mau manda mal!!!
Tctctctctctctc... (abstnência)
Posted by Anônimo Veneziano at 10:38 Saturday 4, 2004
Caraleo!!!!!!!!!!!!!!
Posted by brontë at 10:38 Saturday 4, 2004
Tomara que amanhã chegue logo.
Posted by Anônimo Veneziano at 10:39 Saturday 4, 2004
Alexandre, que saudade dos seus textos! Mas cá estou eu, de volta. Grande abraço :0)
Posted by Roberta Febran at 10:39 Saturday 4, 2004
; ))))))))))
Pois é, o cara se deu mal! Mas a história tá entrando na reta final agora. Deve terminar lá pelo capítulo 12 (talvez antes). Muitas surpresas por aí ; )
Ah, e realmente é engraçado aquele "hide" no fim do texto ; ))))
Posted by Alexandre Mandarino at 10:39 Saturday 4, 2004
Engraçado? É cruel! A gente no maior embalo e de repente acaba. Nos deixando ansiosos a esperar pela continuação.
Seu sádico! Huahuahua!!!
Posted by Anônimo Veneziano at 10:40 Saturday 4, 2004
Não foi de propósito! ; ) Prometo postar sempre diariamente, na medida do possível. Mas me enrolei no final de semana. Mas a reta final já tá escrita, então vai ser diário mesmo ; )
Posted by Alexandre Mandarino at 10:40 Saturday 4, 2004