145 Gramas - Capítulo 9
Myrtes. Myrtes Rigazzalli quer que eu trabalhe pra ela. Isso tem a palavra “armadilha” soletrada em neon gigante por todos os lados, mas... o que ela disse mesmo? Que a polícia não tem meu nome ou descrição ainda. Isso explica porque “Mambo” veio aqui me dar um susto e não me levou preso (não que ele já não soubesse qual é a minha “opção de carreira”; ele sempre soube, mas sempre fechou o olho pra isso, por falta de provas).
O que me faz pensar: como ela tem meu nome e, principalmente, o número do telefone da minha casa?! É como dizem, a curiosidade matou o gato. Finalmente volto a sair e trancar a porta, após me certificar de que não havia deixado nada importante para trás. É isso. Adeus, velho apartamento. Adeus, vizinhos malucos. Adeus, Sra. Williams. Estou partindo para...
Falando no diabo...; mal faço essa despedida mental, a Sra. Williams mais uma vez aparece na porta de seu apartamento. Dessa vez ela diz:
- Vai ficar muito tempo fora. Sr. Williams?
- Ahn?... Err... Não sei dizer, sra. Williams, mas é provável que não. Quer dizer, talvez eu demore algumas semanas.
- Semanas? É uma pena...
E me lança um olhar bem estranho, como se contasse com a minha presença para algo qualquer. Finalmente, fala:
- Já soube do Mark?
- Mark? Que Mark?
- Mark Johnson. O “menino do 201”.
Isso me chama a atenção.
- Não, não soube... O que houve?
- Bem, a sra. Johnson, como eu previa, não denunciou o grotesco do marido dela à Polícia... Manteve a história sobre ter caído da escada. Ela ainda está no hospital e não duvido nada que volte para casa, mesmo tendo que dividir o teto, a mesa e a cama com um monstro. Humpf! Algumas mulheres são estúpidas assim, o senhor sabe, sr. Williams.
- ...
- Ela...
- Não, peraí. Desculpe, sra. Williams. A senhora iria me contar algo sobre o menino. O que aconteceu?
- Mark, sim... Foi horrível, sabe?
- O que aconteceu, sra. Williams??
- Foi há poucas horas atrás, enquanto o sr. estava fora. Ouvi gritos horríveis e saí ao corredor. Desta vez os gritos foram tão terríveis que até mesmo o inútil do Petey, aquele vagabundo do quarto andar que fica o dia inteiro fumando marijuana e ouvindo aquelas horríveis músicas jamaicanas ou algo assim; até mesmo ele desceu até o segundo andar para saber o que estava havendo.
- E o que estava havendo? - maldita mulher, não pode falar logo?, penso.
- Ora, sr. Williams, o que poderia estar havendo? O de sempre, só que pior desta vez.
Ela diz isso como uma indireta, como se somente eu não soubesse o que ocorria no 201. Eu sempre soube, mas era a última pessoa do prédio que queria complicações com a polícia. Mas essa história começa a deixar de ser simplesmente um gosto ruim na minha boca e passa a me deixar um tanto irritado. Sabe, é difícil que eu fique realmente irritado. Preciso manter a cabeça fria, é pré-requisito na minha profissão. Mas é estranho como o cara do 201 está começando a me deixar irritado. A sra. Willliams continua:
- Bem, ele finalmente acordou da bebedeira e saiu de casa. O sr. Johnson, não o pequeno Mark. Voltou logo depois, com um pacote de papel contendo o que tenho certeza que era umas três garrafas de uísque dos mais vagabundos. Pouco tempo depois, os gritos começaram. O Petey, do 401, desceu até lá e bateu na porta. Ele parecia assustado e inseguro ao fazer isso, mas a essa altura já tinha mais gente no corredor. Finalmente, o sr. Johnson abriu a porta. Ele estava completamente bêbado, tão chumbado que caiu sentado assim que Petey olhou para ele. Foi nesse momento que eu cheguei ao segundo andar e me aproximei da porta do 201. Petey estava lá, sem entrar, claro, porque ele não é bobo de se arriscar a uma acusação de imnvasão de domicílio. É o que eu sempre digo, famílias brancas não deveriam vir morar em prédios de negros. Sempre dá problema, porque as pessoas ficam...
- Sra. Williams, por favor, o que houve com o menino?
- Bem, ele está no hospital agora, no mesmo andar que a mãe. O sr. Johnson bateu nele com algo que talvez fosse uma garrafa ou algo assim. Eu não sei, não quis olhar. Foi Petey quem, afinal, ao ver o menino, entrou no apartamento, pegou-o no colo desceu até o meu, aqui no 101. O braço direito dele estava quebrado em duas partes; havia várias luxações horríveis e, pior: ele estava desmaiado, com cacos de vidro sobre um horrível ferimento na cabeça. Chamamos a ambulância e acho que o menino está com traumatismo craniano ou algo assim. Ah, e havia uma horrível queimadura nas pernas. Parece que ele, Mark, estava fervendo água no fogão para fazer alguma coisa para comer, já que havia ficado o dia inteiro sem comer, pobre menino - e o sr. Johnson, durante o ataque, pegou a panela do fogo e jogou a água nas pernas dele. Foi aí que...
Mas eu já não estou mais ouvindo. Sabe, preciso contar até dez, como nos filmes, pensando em algo bem nulo, como uma parede branca. Esse sujeito é um porco. Eu preciso me acalmar. Somente um pensamento cruza a minha cabeça: “graças a deus estou indo embora daqui; se ficasse mais algum tempo neste prédio, acabaria fazendo alguma bobagem”.
Ainda extremamente irritado, balbucio algo para a sra. Williams e saio do prédio. Caminho até o Arbuckle. Na minha mão, está o papel com o endereço de Myrtes Rigazzalli. Sabe, não sei se é bom ou ruim que eu vá visitar aquela mulher irritado do jeito que estou. Ligo o carro. A automática, claro, está na minha jaqueta. Faço o possível para me acalmar, olhando para os outros carros, os sinais de trânsito e as pessoas nas calçadas. Alguns longos minutos depois, estou estacionando o carro em frente ao apartamento.
Desço e entro na portaria, levando apenas a arma e as chaves do Arbuckle. Poderia ter parado o carro na viela, mas todas as minhas coisas estão dentro dele. Não posso me arriscar a que seja roubado com tudo dentro. Melhor deixá-lo à vista do porteiro que, aliás, a essa altura, já me olha com curiosidade, como se estivesse forçando a vista para se lembrar onde havia me visto antes. É incrível como um uniforme faz diferença - ou a ausência dele.
Me aproximo da mesa e digo:
- O apartamento de Myrtes Rigazzalli.
O velho diz:
- Ela está esperando o senhor?
Olho para ele, sem dizer nada. Imagino que ainda devo estar com uma expressão irritada, porque o velho imediatamente leva a mão até o interfone.
Minutos depois, estou batendo na porta da mulher. É ela mesma quem me atende, toda cheia de si. Desta vez, não há nenhum capanga no apartamento. Ao menos, não na sala. Ela me recebe sem falar nada. Também fico em silêncio, esperando que ela fale. Me sento em uma poltrona ao lado da porta, enquanto ela toma a ponta do sofá à minha esquerda.
- Sr. Muhammad Williams. “Mad” Williams. - ela diz, me olhando nos olhos. Parecia se divertir.
- O que quer, sra. Rigazzalli?
- Direto ao ponto, você prefere? Bom, como eu disse no telefone, quero que faça um serviço pra mim. E pode me chamar de Myrtes.
- Não entendo, sra. Rigazzalli. Que tipo de serviço?
Ela me olha, como se estivesse intrigada com algo, e então diz:
- O seu tipo de serviço. Que outro poderia ser?
Eu abro a boca para falar algo, mas ela me interrompe:
- Sabe, sr. Williams, o senhor matou o meu marido. Em troca, é justo que mate alguém para mim.
- Não parece estar profundamente enviuvada... sra. Rigazzalli.
Ela me olha, restos de ódio escapando pelas pupilas:
- Cale a boca, sr. Williams. Sabe, o senhor me fez um favor. Jock sempre havia sido um idiota. Estaávamos separados há alguns anos exatamente por causa disso. Jock era um idiota. Uma criança grande, criada numa maldita mansão com capangas e paparicado pelo velho Rigazzalli, que o fez se sentir como o herdeiro de um grande castelo ou merda parecida. Jock era imaturo, mimado, auto-indulgente. Um bebê chorão. Um bebê cruel e cheio de vontades, mas um bebê. E seus irmãos já morreram. Sr. Williams, o senhor apressou as coisas para mim. Não sei se sabe, mas eu sou a pessoa mais lógica e indicada para assumir os negócios dos Rigazzalli, agora. Dependia única e exclusivamente do tempo, da sorte... e o senhor fez isso por mim, antes do que eu esperava. Obrigada, sr. Williams.
Para, abre a bolsa ao seu lado, retira uma cigarreira de prata e acende um cigarro mentolado, com cheiro horroroso. Resolvo entrar no jogo irônico dela:
- Cigarros mentolados dão câncer, sabia?
- Sr. Williams, o senhor fica péssimo tentando ser cínico. Deixe isso para mim, está bem? Como eu dizia, foi um grande favor. Mas não uma surpresa, o senhor entende. Quero dizer, isso o senhor ainda não entende.
- Do que está falando?
- Sabe, Ted “Payola” era um idiota... um idiota bem útil.
- ...
- Mas, veja: agora comando boa parte dos negócios de Nova York. Mas, mesmo assim, sr. Williams, Jock Rigazzalli era meu marido. Se devo me impôr como a nova cabeça do clã, devo dar exemplos. Nenhum Rigazzalli morre impunemente.
É isso. É mesmo uma armadilha. Sem perceber, levo a mão até a arma, na jaqueta, bem devagar.
- Não seja tolo, sr. Williams. Eu não quero matá-lo. Relaxe. O seu pagamento não será com a vida. Em troca da morte do meu marido, terá que matar uma pessoa para mim.
E então tira um envelope do bolso, jogando-o no meu colo.
- O endereço está aí dentro. Não preciso dizer, claro, que não ganhará nada por isso. Não fará isso por dinheiro; fará porque me deve isso. E por mais um motivo. Tenho um envelope contendo sua descrição, nome, telefone e número da conta bancária, guardado por uma pessoa de minha confiança na Mansão Rigazzalli. Se se recusar ou ousar me atacar aqui, este envelope irá direto para a Polícia. Já deixei um testemunho pessoal por escrito dentro dele, também. Se não matar este homem, eu o entregarei à Polícia. Se matá-lo, tudo estará quites entre nós.
Pego o envelope com o endereço do pobre diabo e guardo no bolso da jaqueta. Olho para Myrtes e falo:
- Sra. Rigazzalli... sabe, a máfia não costuma ver chefes do sexo feminino com bons olhos. Sugiro que tenha cuidado. Ah, por falar em cuidado: como conseguiu meu telefone e os outros dados?
Ela me olha, quase sorrindo, com os grandes olhos negros brilhando:
- A resposta para a sua “preocupação” e para a sua pergunta é uma só, sr. Williams. Está prestes a sair por aquela porta.
E me aponta a porta que leva para o quarto, onde “encontrei” Jock Rigazzalli naquele dia terrível. A porta se abre e dela sai um homem sorridente, que caminha até o sofá.
Não.
Não é possível.
É Andrea Porrazzo!!
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nossa, isso tá ficando cada vez melhor...
Posted by Sonja Knips at 10:43 Saturday 4, 2004
Valeu, Sonja!!! Tá na reta final: a última parte é a 11 ou 12. Depois disso: algo completamente diferente ; )
Posted by Alexandre Mandarino at 10:43 Saturday 4, 2004