145 Gramas - Epílogo: Arbuckle
Cinco anos atrás.
O barulho do osso batendo na madeira podia ser ouvido do lado de fora do Travis Bar. “Bar” é um eufemismo para “grupos de sujeitos de qualidade duvidosa bebendo cerveja e jogando sinuca”, mas “Mad” gostava do lugar. Ali, ele era apenas mais um rosto, passando desapercebido pela multidão de rostos alcoolizados.
Ao abrir a porta, um bafo quente e um cheiro rançoso passearam pelo seu rosto. Figuras conhecidas há anos cumprimentavam “Mad” com um discreto e respeitoso aceno com a cabeça. Ficou observando o jogo em uma das mesas por um tempo - “Piccadilly” estava prestes a ganhar mais dinheiro graças à total falta de habilidade manual e senso espacial distorcido de Peter “Pequeno”. Não tardou para que o de sempre acontecesse: Travos o visse ali e o recebesse efusivamente.
- “Mad” Williams! Sim, é “Mad” Williams - bradava o velho.
- Oi, Travis - cumprimentou “Mad”.
- É sempre ótimo receber você por aqui, seu safado. Sabe, fui visitar meu filho hoje. Já lhe falei dele, não é? Doente, coitado. Bom, ele está...
Como também sempre acontecia, “Mad” desligou os ouvidos ao perceber que o tradicional blá-blá-blá de Travis sobre o filho doente havia começado. Enquanto Travis falava, os dois caminhavam para o “escritório” de Travis - na verdade, uma saleta exígua onde uma mesa e um frigobar se espremiam entre incontáveis engradados e caixas. Foi somente quando estavam na porta que dava para a saleta que Travis disse algo que fez a audição e a compreensão de “Mad” novamente pegarem no tranco:
- ...Foi lá que vi seu pai, você sabe. Lá no Arizona.
“Mad” enrijeceu e parou de caminhar. Seu rosto estava sério.
- Meu pai, você disse? Você tá me dizendo que viu o meu pai, Travis?
- É, foi o que falei.
Fez-se uma pausa momentânea.
- Onde? - perguntou “Mad”, com estudada indiferença.
- NoArizona! É lá do Arizona que a gente tá falando!
“Mad” repentinamente voltou a andar e empurrou a porta, entrando na saleta:
- Não importa onde meu pai está. Esse assunto acabou, Travis.
O velho concordou, relutante, mas manteve silêncio. Sabia como “Mad” ficava irritado com esses assuntos. Os dois sentaram ao redor de uma mesa quadrada de madeira e logo um velho atarracado trouxe dois copos de cerveja. Travis, em uma súbita decisão, arriscou-se a falat sobre outro assunto-tabu para “Mad”:
- E aí? O que tem feito?
- ... Nada de mais. Alguns serviços, você sabe.
O “sabe” foi pronunciado de forma a advertir Travis de que era melhor não seguir por esse caminho. O velho percebeu e imediatamente falou sobre a primeira coisa que lhe veio á cabeça:
- Foi fácil estacionar lá fora, “Mad”? Nos sábados à noite a rua fica cheia de carros.
“Mad” fez que sim com a cabeça, como se não tivesse pensado nisso antes. Travis prosseguiu:
- Por falar nisso, ainda é o mesmo carro?
- Sim.
- É um ótimo carro! É o que eu digo para qualquer vagabundo que me pergunte: os melhores carros foram feitos nos anos 70. Nada dessa viadagem de carros japoneses atuais, com esses formatos escrotos, cheios de babaquices no painel que você nunca vai usar mesmo. É que nem telefone celular: só inventam coisas que você nunca vai precisar! Porra, Steve McQueen dirigia carros dos anos 70. James Caan, Gene Hackman, Lee Marvin, todo esse pessoal. E se McQueen dirigia um carro dos anos 70, quem é o velho Travis pra discordar dele? Eh, eh.
“Mad” iria dizer que Steve McQueen só dirigia carros dos anos 70 porque ele ESTAVA nos anos 70, mas achou melhor calar a boca e se poupar de explicações mais longas. Mas explicações mais longas estavam reservadas para ele aquele dia:
- Como é mesmo o nome dele?
- Arbuckle.
- Isso! Por que esse nome? Aliás, esse é outro excelente costume que se foi: as pessoas hoje não dão mais nomes aos seus carros. Não entendo como alguém pode batizar uma criatura tão estúpida como um cachorro, por exemplo, e não se dar ao trabalho de pensar em um bom nome para o seu carro! lembra da minha velha Mary Jean? Aquilo sim era um carro...
Em uma rara exceção, “Mad” se animou ao pensar que Travis entraria em mais uma de suas intermináveis reminiscências, pois isso o pouparia de contar a longa história do Arbuckle. Mas estava errado:
- E então? Por quê esse nome? Arbuckle... É um bom nome para um carro como aquele, mas não muito comum, pelo que sei de nomes de carros.
“Mad” olhou para Travis, suspirou, deu um longo gole na cerveja à sua frente e começou:
- Bom... Arbuckle... É, você sabe, eu comprei esse carro em 1977. Então, quando eu comprei, ele era um carro zero quilômetro. Mas ele me dá sorte. Por isso nunca me desfiz dele.
“Percebi que ele me dava sorte assim que comecei a rodar com ele. Na primeira semana, ele parecia saber sozinho o caminho das ruas, tão macio que estava rodando. Logo vi que era um carro realmente muito bom. Na época eu trabalhava como gerente de um Kentucky Fried Chicken e consegui juntar uma grana pra comprar o carro.
“Foi aí que as coisas ficaram estranhas... Você sabe, já lhe falei sobre isso. Fui demitido, fiquei meses sem emprego. Longos meses, fazendo bicos. Então tive a idéia mais importante da minha vida. Talvez não tenha sido a mais brilhante, mas foi sem dúvida a mais importante. Fui procurar o Jack “Mármore”.”
Travis baixou a cabeça ao ouvir aquele nome. “Mad” continuou:
- Você se lembra Travis, “Mármore” era quem mandava na época. Isso foi bem antes do Ted “Payola” aparecer e da Máfia italiana ressurgir da merda onde tinham se enterrado nos anos 70. O “Mármore” era um cara alto, forte como um muro de tijolo - ou, bem, de mármore. Inteligente e esperto como o diabo. Ele morava numa mansão em Long Island, em plena Quinta Avenida. Naquela época esse pessoal era mais folgado.
“Bom, até que não foi muito difícil chegar até ele. Pedi que o “Vitrolinha” me indicasse. Lembra do “Vitrolinha”? Tinha sido meu amigo de infância. Morreu poucos anos atrás, espancado pelo pessoal do Paolo “Girafa”. Mas, bom, o “Vitrolinha” conseguiu uma hora pra mim com o “Mármore” e eu fui lá me oferecer pra trabalhar pra ele. Tava desesperado, sem grana, sem emprego. E pensei: ‘bom, isso é temporário. Daqui a pouco eu arranjo um emprego mesmo e deixo isso pra trás’. Bom, as voltas que a gente dá no próprio eixo...
“O “Mármore” me olhou com certa dúvida, ainda que com respeito. Afinal, era muita cara de pau ir lá propôr isso pra ele. Acho que foi pelo descaramento que ele me deu uma chance. Ele foi até uma sala, mexeu numa estante e voltou com uma foto. Era aquele cara. O primeiro cara que eu teria que matar na vida. Larry Arbuckle.
“Arbuckle era um texano de uns 40 anos, magrelo e todo frágil, mas era chamado o ‘rei dos bookmarkers’. Ele fez alguma merda que deixou o “Mármore” bem puto. Grana, claro, alguma coisa assim. “Mármore”foi bem claro: o serviço tinha que ser rápido, limpo e parecer um acidente. E o pior: tinha que ser feito no dia seguinte, sem falta.
“Fiquei assustado: nem arma ainda eu tinha. Quem me arrumou minha primeira arma, uma Mauser alemã cheia de paradas, foi o “Historinha”, claro. saí da mansão do “Mármore” direto pra casa do “Historinha” e ele me arranjou na hora essa arma. Arma bem estranha, eu só tinha visto uns Colts e automáticas americanas.
“Bom, fui pra casa - na época eu ainda morava em um apartamento no Bronx - e tentei pensar em algum esquema. No dia seguinte, o tal Arbuckle ia estar jantando no Rosalind’s Milk-Shakes, em Tribeca. O lugar era um daqueles restaurantes-trailers enormes, que havia escapado do final da década de 50 se escondendo em algum buraco da cidade.
“Dormi bem mal naquela noite e não foi por menos: além de toda a situação e de tudo o que estava em jogo, tanto pra mim como pro “Mármore”, era uma coisa delicada. O “Mármore” tinha sido claro: ia me dar uma chance pela minha coragem de ir lá falar isso com ele, mas o caso do Arbuckle não era um teste. Era um lance alto - e ele foi claro: se o cara não morresse aquele dia ou se eu cagasse o esquema de alguma forma, era eu quem iria morrer. Se tudo corresse bem, eu tinha a “vaga”. Ele não disse isso com essas palavras, claro, mas foi o que havia ficado bem claro pra mim.
“Pra encurtar a história, no dia seguinte lá estava eu, às sete da noite, estacionando o Mustang ainda novo na calçada oposta à do Rosalind’s. Era uma avenida larga, deserta e bem escura. Vários mendigos dormiam nessa calçada, ao lado dos carros estacionados. Desci do carro, atravessei a avenida, que estava praticamente sem trânsito, e entrei na tal lanchonete. A Mauser, claro, tava no meu bolso, mas eu não iria matar o cara ali. Iria esperar ele sair, segui-lo e então fechar com ele em algum beco por ali.
“Parecia tudo tranquilo, exceto que... os minutos passavam e nada de aparecer ninguém semelhante ao sujeito da foto que o “Mármore” tinha me dado. Eu já tava na quinta cerveja, quando me toquei que, naquelas circunstâncias, seria a coisa mais idiota do mundo continuar benendo. Ao invés da sexta caneca, pedi uma Coca-Cola e um cheeseburger, pra dar uma equilibrada.
“Eu olhava a cara de todo mundo que entrava; já tinha checado todo mundo que estava nas mesas e no balcão; tinha ido até ao banheiro e aberto os reservados, um por um. Nada. Claro, já tinha até reparado nas garçonetes, pra ver se uma delas não era um cara disfarçado. Idéia cretina, eu sei, mas são nessas coisas que você pensa nessas horas. Eu já tinha praticamente decorado a posição de cada objeto do lugar; já conhecia intimamente as ranhuras do tampo da minha mesa. Estava ali há quase três horas e meia, quando finalmente o último freguês saiu e a garçonete veio me avisar que estavam fechando.
“Terminei minha quarta Coca-Cola de um só gole, deixei o dinheiro sobre a mesa, levantei e saí. Mal passei pela porta, a moça que havia me servido arriou as portas de segurança do trailer. Na rua à minha frente, apenas silêncio.
“Ainda andei um pouco por ali, cerca de vinte, vinte e cinco minutos. Nada. Apenas escuridão e a buzina de um esporádico carro a vários quarteirões de distância. Aquele lugar desgraçado me arrepia até hoje. Finalmente desisti e caminhei cabisbaixo até o carro. Eu estava perdido. Naquele momento, tive certeza de que “Mármore” ia mandar darem cabo de mim assim que soubesse do meu fracasso.
“Entrei no Mustang e liguei o rádio. Isso sempre me ajuda, é um hábito que mantenho até hoje. Estava em um talk-show. Uma mulher reclamava que o marido dela a havia deixado vinte e três anos antes - e o disc-jockey repetia no ar o nome do sujeito, para que ele entrasse em contato com ela. De alguma forma, aquele diálogo me animou. Liguei o carro e comecei a manobrar para sair da vaga. Quando dei a ré, senti um solavanco e um barulho de ovos se quebrando.
“Me assustei com aquilo. Quando estava já na avenida, voltei a dar a ré para emparelhar com a vaga que eu estava ocupando. Meu coração veio à boca.
“O calçamento estava repleto de sangue, que brilhava à luz da Lua. No canto, estava caído um mendigo, com a cabeça esmagada pelo pneus traseiro. Eu matei o velho quando dei a ré para manobrar e sair da vaga. A cabeça praticamente tinha desaparecido, estalado como se fosse uma noz. E, diabos, era um mendigo. Não tinha nada a ver com a história.
“Eu era um total fracasso. Voltei para casa quase a 30 quilômetros por hora, me sentindo o último dos seres humanos. De volta ao meu apartamento, só consegui dormir por dois motivos: a depressão havia me deixado mole e cansado de forma estranha; e a certeza de que aquela seria a minha última noite de sono nesta vida. No dia seguinte, “Mármore” iria começar a encomendar o meu caixão. Naquela noite tive pesadelos, com lápides de mármore caindo do céu e esmagando a minha cabeça.
“A manhã estava alta quando acordei. Umas dez. Levantei, como quem vai para o cadafalso. Fiz um café ralo, bebi e abri a porta para pegar o jornal. Voltei a me sentar na mesa, lendo as manchetes: ‘epidemia’ de cocaína nas discotecas; problemas no Oriente Médio; crise do petróleo. Era uma espécie de versão pocket do que acontece hoje, aquela época. A qualquer momento eu iria receber notícias de Mármore”. Pelo telefone, com certeza, já que ele havia exigido meu número e endereço como condição para que trabalhasse para ele.
“A inércia me fez ligar a TV. No jornal da manhã, as mesmas notícias. Então, começou o noticiário local e logo senti um arrepio. Ainda lembro as palavras da locutora como se fosse hoje:
- Vagabundo morre com a cabeça esmagada por um carro. Tudo aconteceu em Tribeca, em frente a uma lanchonete, na noite de ontem. O corpo do pobre diabo foi encontrado esta manhã, com a cabeça totalmente esmagada. Peritos da polícia acreditam, pelas marcas de pneus, que o mendigo foi morto por acidente, quando algum motorista tentou manobrar sobre a calçada. O velho foi identificado por amigos como Lawrence Martins Arbuckle, de 43 anos, que até o mês passado trabalhava como bookmaker. Amigos e parentes...
“Meus olhos pareciam estourar de tão arregalados. Eu simplesmente não podia acreditar naquilo.
“Bom, resumindo uma história longa demais: pelo que parece, Arbuckle era um alcoólatra e havia caído por ali antes que conseguisse chegar ao Rosalind’s. Naquele instante, desliguei a TV, saí do meu apartamento, fui até à rua e dei um beijo no capô do meu carro. Como ele também bebia bem, decidi que o nome dele dali para a frente seria Arbuckle. Eu tinha certeza de que isso me daria sorte.
- E, sabe de uma coisa, Travis? - disse “Mad”, dando o gole final em sua cerveja. - Ele tem me dado sorte até agora. Dirigindo um carro assim, o que pode acontecer de errado comigo?

Mustang 77 é Arbuckle.
A seguir, estréia uma nova história, com novos personagens: O Círculo de Ossos.
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Ah, carro cagado...
Posted by Pablo Casado at 10:54 Saturday 4, 2004
ainda nem li, mas já tô feliz!!!!
Posted by Sonja Knips at 10:54 Saturday 4, 2004
Valeu a espera!
Vou cobrar na segunda...
Posted by Anônimo Veneziano at 10:55 Saturday 4, 2004
bom, muito bom. o único porém é que fica óbvio que o mendigo é o arbuckle assim que você cita o atropelamento.
Posted by ana at 10:55 Saturday 4, 2004
esse carro tem "soul"...from hell, rs.
Posted by ll at 10:55 Saturday 4, 2004
Joinha, joinha...queremos tutano agora.
Posted by Massula at 10:56 Saturday 4, 2004
Legal! Espero que no próximo tenha muito tiro e violência!
Posted by Nitro at 7:55 Saturday April 12, 2005
Com certeza!! ; )))
Posted by Alexandre Mandarino(www) at 19:24 Sunday April 13, 2005